31 Filmes

"For me, the cinema is not a slice of life, but a piece of cake." (Alfred Hitchcock)

Introdução

Um blog sobre cinema, com comentários sobre as virtudes dos eleitos e dos artistas que os filmaram (e também sobre as eventuais falhas deles). Mas não é um blog de crítica cinematográfica, nem a lista dos 31 filmes preferidos do autor. 31 Filmes é uma compilação de filmes importantes de um ponto de vista pessoal. É um tratado sobre a importância do cinema na vida de uma pessoa e uma declaração de amor ao pop.
(Trecho copiado e livremente adaptado do livro "31 Canções" de Nick Hornby, que inspirou a criação deste blog)

ATENÇÃO. Os textos abaixo contêm spoilers.

Sobre o autor

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Renato Thibes
São Paulo, SP, Brazil
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Ruas de Fogo

("Streets of Fire", 1984, Dir.: Walter Hill)



Não dá pra prever o sucesso. Às vezes você ama um filme à primeira assistida e espera que todo o resto da humanidade te acompanhe, mas isso nem sempre acontece. Quando vi "Ruas de Fogo" pela primeira vez na Tela Quente, lá pelo final dos anos 80, eu tinha certeza absoluta de que seu impacto na escola no dia seguinte seria o mesmo de "Top Gun", que havia passado pouco tempo antes: meninas histéricas apaixonadas pelo mocinho, meninos malucos pela enorme quantidade de atrativos masculinos como motos, tiros, socos e uma mocinha gostosa. Mas nada disso aconteceu. Ninguém veio comentar comigo sobre o filme. Enquanto eu havia passado por uma experiência divisora de águas, o resto da humanidade parecia nem sequer ter notado a existência do filme. Passou batido. Senti o fracasso na pele. Levei para o lado pessoal. Senti como se eu tivesse feito meu filme perfeito, com tudo de legal que eu poderia imaginar, e o mundo o tivesse ignorado.

Segui minha vida levando "Ruas de Fogo" comigo, encontrando pelo caminho alguns poucos gatos pingados que compartilham o mesmo sentimento. É uma turma unida, acredite. Filmes cultuados, especialmente os underdogs como "Ruas de Fogo", não têm fãs - têm defensores apaixonados. Comprar uma camiseta de filme alternativo na Rua Augusta é fácil. Estou falando de outra coisa. Estou falando de sonhar com uma trilha sonora e esperar até o aniversário pra ir na loja Museu do Disco no Shopping Iguatemi de Campinas pra ganhar o LP de presente, de passar a vida tentando redesenhar a maravilhosa ilustração da capa, apesar de não ter nenhum talento para o desenho. Estou falando de esperar anos por um DVD que demorou demais pra sair, e que saiu sem nenhum extra, e comemorar porque pelo menos a dublagem original da TV está nele.

"Ruas de Fogo" é o Cheap Trick do cinema. Eles não têm nenhum hype, não entram em coletâneas nostálgicas e são citados por aí muito raramente. São legais demais, subestimados demais, seus poucos fãs são devotos ferrenhos e suas músicas estão no inconsciente coletivo, embora ninguém saiba de onde elas vêm. Eles não se levam a sério. E eles são muito rock'n'roll. "Streets of Fire", aliás, é o nome de uma música de Bruce Springsteen de 1978. Infelizmente, o Chefe não liberou a faixa para o filme quando soube que ela seria regravada para a cena final.

"Uma Fábula de Rock'n'Roll" é o subtítulo bem bolado, embora não existam bichos falantes e fadas madrinhas. Mas há a princesa raptada por um ogro cruel e o príncipe convocado para resgatá-la. O filme começa com um providencial "Em outra época, em outro lugar", dando a dica de que a história se passa em um tempo indefinido. Os figurinos de Giorgio Armani, os neons, os diners, os motoqueiros rebeldes, os penteados rockabilly e os carros são dos anos 50, mas a sujeira das ruas molhadas, a decadência dos edifícios, algumas cores exageradas, ambientes new wave, roupas bufantes e cabelos com laquê não escondem sua origem nos anos 80. O conjunto da fotografia de Andrew Laszlo com o desenho de produção, a edição com transições de quadrinhos, a trilha de pop, rockabilly, blues e soul assinada por nomes como Ry Cooder ("Buena Vista Social Club"), Jimmy Iovine ("Rattle and Hum") e Jim Steinman (produtor e compositor de Meat Loaf e Bonnie Tyler), a produção caprichada de Joel Silver ("Matrix") e a direção muito macha de Walter Hill, que já havia abordado a delinquência juvenil no clássico "Warriors - Os Selvagens da Noite", garantem uma atmosfera cool absoluta em cada quadro. Uma dádiva que a maioria dos filmes da década de 80 não possui: a concepção estética de "Ruas de Fogo" envelheceu muito bem.

Como não poderia deixar de ser, o filme abre com um show de rock. Ellen Aim and the Attackers estão se apresentando em Richmond, um distrito decadente de alguma megalópole indefinida. E como bom show de rock, ele abre com um sucesso de levantar estádio. A música é "Nowhere Fast", supremo hit de aulas de aeróbica e um marco esquecido dos anos 80. Ellen Aim é interpretada por uma linda e jovem Diane Lane, que no ano anterior havia encantado Francis Ford Coppola em dois filmes sobre juventudes transviadas: "Vidas Sem Rumo" e "O Selvagem da Motocicleta". Ellen Aim é a minha maior sex symbol do cinema e não tem pra ninguém. Trata-se de uma estrela pop fabricada, superficial e ambiciosa. Em um determinado momento do filme ela revela a uma fã que nunca compôs nada, que seu empresário compra ou rouba as músicas. Ela trocou a paixão de sua vida, um bad boy galã e briguento a la Marlon Brando, pela segurança de um empresário inescrupuloso, feio, baixinho e coxinha vivido por Rick Moranis. Ela renega seu passado humilde, ela só pensa na carreira. Do lado de cá da tela, cada música que Ellen canta é interpretada por uma cantora diferente. Em alguns casos, são várias cantando junto para dar voz à diva - em "Nowhere Fast", as vozes são de Laurie Sargent, Rory Dodd, Holly Sherwood e Eric Troyer. Ellen Aim é uma fraude e a interpretação blasé de Diane Lane fora dos palcos é discutível, mas eu a amo mesmo assim. Porque em cima do palco, seu habitat natural, Ellen Aim é uma deusa.

O show parece correr bem, mas vemos a fã Reva (Deborah Van Valkenburgh) apreensiva na plateia. Motoqueiros maus estão se aproximando. A dupla de policiais formada por Ed Price (Richard Lawson) e Cooley (Rick Rossovich, o parceiro de Iceman em "Top Gun") está preocupada. A gangue dos Bombers é um perigo, liderada pelo feio, mau e nojento Raven Shaddock, um dos primeiros papéis de destaque de Willem Dafoe. Os Bombers invadem o show, sequestram Ellen Aim e botam fogo nas ruas de Richmond. Outro novato promissor, Bill Paxton, é o barman Clyde, que tenta impedir a ação da gangue e leva uma surra. Reva, preocupada, envia uma carta para seu irmão Tom Cody (Michael Paré), o cavaleiro solitário que volta à cidade. Paré e sua pinta de galã não tiveram a mesma sorte do restante do elenco. Ele acabou em filmes de ficção B daqueles que saem direto em vídeo, ao lado de outros nomes de peso da época, como Rutger Hauer e Tom Berenger. Ator um tanto quanto canastrão e limitado, Paré foi o que mais sentiu o fracasso de "Ruas de Fogo", sua grande chance de alcançar o estrelato. Pobre Tom Cody. Aqui, os letreiros iniciais nem terminaram e ele já aplicou um corretivo, sozinho, em uma gangue de arruaceiros que atazanava o diner da irmã garçonete. Não sem antes estraçalhar umas vidraças e demonstrar uma técnica invejável com o canivete, é claro.

Assim como Ellen, Tom foi criado na vizinhança, é o garoto rebelde sem causa que todos conhecem, que volta à cidade e encontra as coisas diferentes. A primeira coisa que faz no retorno é arrumar uma briga. A segunda é pegar o carro dos arruaceiros, um Mercury 1951 vermelho, customizado e conversível, pra dar um rolê com a irmã. E quando ela conta que sua ex foi sequestrada e que ele deveria resgatá-la, o bom senso atua: "Você quer que eu vá salvar uma ex-namorada que está transando com outro cara? Corta essa!" - tradução da versão dublada, que é mais divertida.

A terceira coisa que Tom Cody faz é se enfiar em um bar, onde reencontra o barman Clyde e conhece McCoy (Amy Madigan), a primeira personagem autenticamente lésbica com a qual tive contato na minha vida cinematográfica. Ao longo do filme ninguém menciona sua opção sexual. McCoy se apresenta como uma "soldado". Mais pra frente, quando já se tornou a melhor amiga de Cody e ele está abrindo seu coração, McCoy confessa que também se decepcionou com um namorado uma vez. "Mas isso antes de eu ser soldado". Ou seja, antes de sair do armário. O personagem foi concebido como homem, mas a atriz Amy Madigan convenceu Walter Hill a reinventá-la assim, de forma ambígua. Dykes de todo o mundo deveriam ter McCoy como símbolo de uma era. Uma era onde um filme de aventura podia se dar ao luxo de incluir uma espécie de versão lésbica do Han Solo entre os protagonistas. E veja, se é normal uma mulher ter um melhor amigo gay, Tom Cody tinha uma melhor amiga lésbica. Ponto para o vanguardismo em um filme concebido para ser retrô.

Então Cody está em casa pensativo e, vendo uma foto velha de Ellen Aim (com cara de foto da sua avó quando era jovem), ele muda de ideia e decide resgatá-la. Motivação do personagem é coisa de estudante de teatro da USP, meu filho. Cody segue seu coração e decide aproveitar pra tirar uma grana do empresário da ex, o inacreditavelmente covarde, falastrão e arrogante Billy Fish (o eterno Rick Moranis). E mais: Cody escala Fish para ir junto na missão, já que ele conhece a área dos Bombers, o longínquo distrito de Battery. Pausa para contestar o roteiro. Por que simplesmente eles não avisam a polícia? Vai saber... Mais um dos mistérios do texto não muito coeso de "Ruas de Fogo". Além de diálogos que abusam do "Cala a boca" e do "É o seguinte...", não sabemos nem por que diabos Raven sequestrou Ellen Aim. Ele não pede resgate, pede apenas pra que ela fique com ele umas duas semanas, posando de namoradinha. O ideal é encarar o filme como um western, uma versão rockabilly de "Rastros de Ódio". Os índios sequestraram a mocinha e o mocinho tem a missão de salvá-la. Ponto.

O grupo de resgate formado por Cody, Fish e McCoy trava diálogos incríveis na longa viagem até o Battery. Coisas como "Eu compro e vendo pessoas mais valiosas que você todo dia" (Fish) e "É difícil saber o que é mais patético: a maneira como você fala ou as roupas que você usa" (McCoy). O roteiro exagera para mostrar Billy Fish como um sujeito escroto insuportável, que graças à figura de Rick Moranis se torna cômica. Sua interação com Amy Madigan rende o bom humor que não caberia na figura extremamente cool do casal principal.

Eu divido "Ruas de Fogo" em capítulos. A introdução mostra o sequestro de Ellen e o retorno de Cody. O capítulo I é a missão de resgate, a viagem até o inferninho em Battery, o show da banda The Blasters com direito a strippers e motoqueiros sujos e o resgate em si, com McCoy chamando para si a responsabilidade da partida e Cody literalmente botando fogo na rua. A missão é um sucesso, mas Raven jura vingança em uma bela cena em meio a chamas com Tom Cody fazendo pose de sobretudo em uma moto turbinada.

O capítulo II envolve o retorno da turma para casa, numa espécie de road movie urbano no melhor estilo "Uma Noite de Aventuras" ou "Depois de Horas", filmes da época onde uma porção de coisas bizarras aconteciam a um grupo de pessoas em apenas uma noite de correria. Algumas revelações novelescas acontecem: McCoy conta a Billy que Tom e Ellen já tiveram um tórrido romance. Billy conta a Ellen que ele está sendo pago pelo serviço. Tom e Ellen discutem a relação. Tom joga na cara de Ellen que se tornou mercenário igual a ela. Uh! Ponto para os meninos.

Quando o grupo cai na noite sem carro, aperece a personagem mais chata e descartável do filme, a loirinha tiete Baby Doll (Elizabeth Daily). Já revi "Ruas de Fogo" umas mil vezes e continuo sem entender qual é a sua função na trama. Em compensação, logo na sequência aparecem os Sorels, um sensacional grupo de soul no melhor estilo Motown, da linhagem dos Four Tops ou Temptations. Como curiosidade, a presença de Mykel T. Williamson, o Bubba de "Forrest Gump", entre eles. No mais, os transtornos da viagem de volta contam com pneu furado, suborno de policiais e mais brigas internas com Billy Fish. Em determinado momento, Cody solta uma pérola: "Eu só não acabo com a sua raça agora mesmo porque seria fácil demais". Como é normal nesses road movies urbanos, as confusões acabam colocando tanto a polícia quanto os bandidos atrás dos nossos heróis. E como também é normal nesses filmes, tudo se resolve quando eles chegam em casa. Ellen é recebida com festa em Richmond, mas Cody avisa: "está só começando". Um mensageiro dos Bombers está esperando e agenda um encontro de Raven com o policial Price. Em um depoimento no melhor estilo de um boxeador antes da luta, Raven chama Cody para o pau.

O capítulo III mostra os momentos que antecedem o duelo e o confronto em si. É quando "Ruas de Fogo" assume seu lado faroeste de vez. Chove em Richmond. A jukebox do diner toca alguma mistura de country com blues. O xerife chama Cody para dar a ordem: saia da cidade. Pegue o trem hoje à noite. Sem mais nada a perder, Tom Cody acaba fazendo as pazes e mais algumas coisas com Ellen Aim, após um romântico e clássico beijo na chuva. Com o amor da sua vida e sua melhor amiga ao seu lado, Cody ameaça sair da cidade. Mas a moral, a honra e o espírito rebelde o fazem voltar para enfrentar o bandido, feito Gary Cooper em "Matar ou Morrer". Não adianta fugir dos problemas, eles vão te perseguir para sempre, então é melhor resolvê-los logo. Para que Ellen não atrapalhe seus planos, Tom tem uma saída bem sutil: abatê-la com um soco na cara. Por essa e por outras, "Ruas de Fogo" foi acusado de misoginia quando lançado. Mais do que o soco na cara, as feministas deviam reclamar é do estereótipo da mulher que troca o amor de um bonitão pelo dinheiro e segurança proporcionados por um feioso. Isso sim denigre a imagem das mulheres. "Ruas de Fogo" é filme de macho, como queríamos demonstrar.

Tom Cody volta e encontra Richmond isolada pelos Bombers. As ruas estão em chamas novamente. Os bandidos, com motos no lugar dos cavalos, aparecem em peso. A população sai às ruas armada para se defender. Entre o duelo dos dois delinquentes e uma guerra civil, a polícia obviamente escolhe o primeiro. Tom Cody e Raven Shaddock travam uma brutal luta de marretas. A briga termina em socos e no final, é claro, nosso herói arrebenta o vilão.

Sem muito tempo para comemorações, o epílogo nos leva direto para mais um show de Ellen Aim em Richmond, agora com os Sorels como banda de apoio. Eles abrem o show com "I Can Dream About You" (na versão do disco cantada por Dan Hartman, no filme por Winston Ford), ainda hoje um sucesso nas rádios de easy listening e faixa mais bem sucedida de toda a trilha. Nos bastidores, Billy Fish tem sua primeira atitude sensata em todo o filme, dizendo a Cody que: "Ela precisa de mim, mas ama você". Ele responde: "Isso passa." Tom e Ellen se despedem. "Se precisar de mim, é só chamar", ele diz. Um último beijo e ele parte em meio à plateia, enquanto ela sobe ao palco para o gran finale com "Tonight Is What It Means To Be Young", o clímax mais emblemático de todos os filmes que marcaram minha infância e adolescência.

Se o filme/show começou com um sucesso, ele termina com catarse. A música de Jim Steinman lembra sim seus outros sucessos, especialmente "Total Eclipse of the Heart", mas é muito melhor. A banda que a gravou, batizada de Fire Inc., agora conta com três vocalistas: Holly Sherwood, Rory Dodd e Eric Troyer, e é quase uma ópera, um hino à juventude perdida, aos amores impossíveis, aos sonhos esquecidos. Talvez ela tenha envelhecido mal, talvez o pessoal de hoje a considere cafona e exagerada, mas eu não consigo não me emocionar, desde a primeira nota. Ajuda o fato de Walter Hill orquestrar tudo magistralmente na melhor cena de show fake que eu já vi em um filme. Iluminação, posicionamento de câmera, coreografia, edição, condução da plateia e principalmente a interpretação intensa de Diane Lane, sentindo cada verso como uma punhalada no peito, fazem da performance de Ellen Aim um momento mágico. Fazem o subtítulo de fábula fazer sentido.

Em meio a essa profusão de imagens e sons bombásticos, três planos específicos acabam comigo, não importa quantas vezes eu assista. Ellen Aim, desgastada emocionalmente e sabendo que seu amado está partindo, olha para o fundo da plateia enquanto canta com os Sorels ao lado. Corta para Tom Cody, que sente o olhar, vira-se e sai pela porta. Volta para Ellen, que agarra o microfone com força e abaixa o olhar, triste. Nenhuma outra cena representa melhor o fim de um relacionamento. Porque são só olhares e uma música, ninguém precisa dizer mais nada. Acabou.

Logo na sequência a câmera se afasta, mostrando Ellen com os outros músicos, sua carreira continuando, sua vida seguindo em frente, a plateia delirando. E Tom Cody mais uma vez solitário caminhando pela rua debaixo de um luminoso com o nome da moça, indo encontrar seu destino. Para não acabar completamente triste, McCoy aparece no Mercury vermelho oferecendo uma carona, e os dois amigos vão embora juntos. O início de uma grande amizade. O "Casablanca" do rock'n'roll.

Ainda me lembro do impacto deste final na primeira vez que vi. Pensei: "Isso não pode ser tão legal". Até hoje, às vezes me dá vontade de ver de novo e eu revejo sem parar no YouTube. Só a cena da despedida, que começa com Reva na plateia, vendo seu irmão indo embora enquanto vibra com Ellen no palco, com os olhos cheios de lágrimas. Em determinados momentos da vida, já estive no papel dos três personagens: o que escolhe ir embora, o que vê seu amor partindo, ou o observador que vê de longe um amor se acabando. Sei como cada um deles machuca.

O legado de "Ruas de Fogo" no mundo exterior não é tão fabuloso quanto na minha vida pessoal. Descobri só agora que a ideia original era uma trilogia com as aventuras de Tom Cody, que não vingou devido ao fracasso do episódio I. O II se chamaria "The Far City" e o III "Cody's Return". Mas o mundo é injusto, a vida é cruel, e o cineasta B Albert Pyun está trabalhando em uma sequência não oficial chamada "Road to Hell", que tem cara de um "Sin City" sem talento e sem dinheiro, com Michael Paré e Deborah Van Valkenburgh repetindo seus personagens e uma atriz desconhecida no papel de Ellen Aim. Deve sair direto em DVD e ninguém vai ficar sabendo. Não quero nem ver. Um triste fim para Tom Cody. Muito pior do que perder a mocinha para o Billy Fish.

No encarte do LP da trilha, Walter Hill revela que quis incluir em "Ruas de Fogo" tudo que ele achava legal quando adolescente e que continuava achando legal enquanto adulto: carros customizados, beijos na chuva, neon, trens pela noite, perseguições em alta velocidade, brigas, estrelas do rock, motocicletas, piadas em situações difíceis, jaquetas de couro e questões de honra. Quando li isso pela primeira vez, não me identifiquei tanto quanto me identifico agora. "Ruas de Fogo" é como tudo isso aí. Era muito legal na minha infância e continua muito legal agora. É isso aí o que significa ser jovem.

A História Sem Fim

("The Neverending Story", 1984, Dir.: Wolfgang Petersen)



Só no cinema, eu vi "A História Sem Fim" nada menos do que quatro vezes. Entre viagens a Campinas e revisões em Leme, lembro até do dia em que fui tentar ver "Máquina Mortífera" (três anos depois) e, barrado pela censura, peguei uma reprise da "História" na outra sala lemense. Isso porque, obviamente, nunca é demais voltar para Fantasia.

Que me desculpem todos os esforços da Disney e de seus similares, mas "A História Sem Fim", uma co-produção norte-americana e alemã, é o meu filme infantil preferido desde sempre, e talvez o principal responsável por eu ser, digamos, uma criança grande até hoje. Junto com "Labirinto" e vários filmes do Spielberg, ele ensinou a muitas crianças dos anos 80 que a fantasia não só é legal, mas também necessária. E também mostrou mais uma vez que existem valores na arte escapista, aproveitando um tema que não sai de moda desde os tempos de "O Mágico de Oz" e nunca vai sair. Pelo menos enquanto houver criança numa sala de cinema.

Brinquei muito de Atreyu quando moleque, usando um arco-e-flecha adaptado, porque naquela época os marketeiros do Harry Potter ainda estavam engatinhando. Era meu personagem preferido ao lado do Menino Biônico (hoje conhecido como Astro Boy). Por algum mistério divino, nunca li o livro que deu origem ao filme. Na faculdade, eu e meus amigos fizemos um trabalho de psicologia sobre o filme e tiramos nota 10. Foi provavelmente o trabalho mais fácil de toda a faculdade, porque está tudo lá, descarado, você não precisa ser perito em Freud para sacar. E finalizando os marcos sentimentais da obra, me lembro bem do advogado picareta de Homer Simpson dizendo que processou os produtores do filme já que a história tinha, sim, um fim. Uma das minhas piadinhas preferidas dos Simpsons de todos os tempos.

"A História Sem Fim" abre com a clássica música tema de Giorgio Moroder (presente em 90% das trilhas de sucesso da época, como "Flashdance" e "Top Gun"), cantada por um one hit wonder chamado Limahl. O filme começa, literalmente, nas nuvens. Logo na primeira cena, Bastian acorda de um sonho, olha para o retrato da mãe ao lado e logo depois fecha o livro que estava lendo na noite anterior. Poucos segundos e já está tudo definido: o menino interpretado com perfeição por Barret Oliver perdeu a mãe recentemente e se entrega de corpo e alma à literatura para fugir dos problemas desse nosso mundo cruel. Bastian poderia ser o melhor amigo do Elliott de "E.T.", que sofria com a ausência do pai. Porém, mãe é mãe. Freud explica. Bastian ainda é filho único, apanha todo dia na escola e seu pai engravatado não é lá uma figura muito acolhedora.

No café da manhã, o pai se limita a transmitir as broncas vindas da escola. Bastian desenha unicórnios durante as aulas, quer aprender equitação mas foge da natação e vai muito mal em matemática - certamente a matéria menos "fantasiosa" já criada pelo ser humano. Então antes de virar as costas e ir para o trabalho, seu pai sentencia: é hora de tirar a cabeça das nuvens e colocar os pés no chão. Em outras palavras, é hora de encarar os problemas e crescer.

Mas os problemas de Bastian não são tão simples de se resolver. Fugindo dos bullies a caminho da escola, ele se refugia em uma livraria velha e empoeirada, cujo dono odeia crianças. O velho manda ele ir jogar fliperama, mas Bastian desfila seu vasto repertório literário (todos livros de fantasia) e ganha o seu respeito. O velho rabugento está lendo um livro misterioso que, segundo ele, não é seguro como os outros. Ao sair para atender o telefone, fica feliz de notar que Bastian levou o livro emprestado na surdina - sinal de que o garotinho já adquiriu alguma coragem desde que entrou ali.

Atrasado para a aula, Bastian se tranca no porão da escola e começa a ler o misterioso livro chamado "A História Sem Fim". Anos antes de fadas e gnomos virarem carne de vaca graças a "O Senhor dos Anéis" e "Harry Potter", somos apresentados a algumas das criaturas que vivem no mágico reino de Fantasia: o Gigante de Pedra que parece João Havelange e saboreia rochas com a sabedoria de um sommelier, o anão com seu caracol de corrida e o furão com seu morcego asa-delta. Todos estão a caminho da Torre de Marfim, lar da Imperatriz, fugindo de uma força devastadora conhecida como Nada. O Nada é simplesmente nada. Alguém explica: se fosse um buraco, seria alguma coisa. Mas não é nada. Se fosse hoje, teria conotação ecológica. No caso de Fantasia, a sustentabilidade é muito mais intimista.

O roteiro de "A História Sem Fim" não esconde o jogo. Os próprios nomes definem a metáfora: Fantasia está acabando e, quando Fantasia acabar, só vai sobrar o Nada. O fim da fantasia é o fim da inocência, da imaginação, da esperança, dos sonhos da infância. O Nada é o apocalipse que se aproxima como uma tempestade, e devo confessar que há 25 anos eu evoco o Nada quando vejo uma tempestade muito feia vindo lá do horizonte.

Na Torre de Marfim, representantes de várias cantos de Fantasia estão reunidos em busca de respostas. Mas a Imperatriz está morrendo junto com todo o reino e só um guerreiro predestinado pode salvá-los: Atreyu, o arqueiro do Povo da Planície. Só que Atreyu é apenas um garotinho e ninguém bota muita fé nele. Só Bastian. Do lado de lá do livro, ele se identifica com Atreyu. Do lado de cá da tela, nós nos identificamos com Bastian. Isso porque "A História Sem Fim" não é só uma aula de psicologia, mas também um exercício de metalinguagem. Muitos anos antes de "O Mundo de Sofia". Sozinho, sem armas, contando apenas com um amuleto chamado Auryn e seu fiel cavalo Artax, Atreyu parte em sua missão, em uma cavalgada épica. Adoro cavalgadas épicas. E quem mais poderia salvar Fantasia, se não uma criança?

Após vagar dias perseguido por uma criatura das trevas chamada Gmork, Atreyu decide procurar a ajuda de Morla, o ancião, o ser mais sábio de Fantasia. Só que Morla vive na Montanha Casco, que fica no Pântano da Tristeza. E mesmo que você não tenha assistido a "História Sem Fim", deve se lembrar da regra do Pântano da Tristeza: se ficar triste, você afunda e morre. Em uma das cenas mais comoventes e chocantes que vi na infância, Artax fica triste e afunda, para desespero de Atreyu. A expressão de tristeza do cavalo é algo que muitos atores globais não conseguem reproduzir. Se você, como eu, nunca entendeu por que Atreyu não afundou junto já que estava triste, o Google responde: é porque o Auryn o protegeu. Não é desculpa pra falha do roteiro, a explicação estava no livro original, ok? Se cada desafio enfrentado por Atreyu é um aprendizado para Bastian. O seu luto materno é o seu pântano da tristeza particular, no qual ele não pode se deixar afundar.

Atreyu encontra Morla, que na verdade é a própria Montanha Casco. Quando vem a revelação, Bastian grita de susto e é ouvido em Fantasia, na primeira interação entre os dois universos. Morla é uma tartaruga gigante velha e rabugenta que, assim como o velho da livraria, tem alergia à juventude. Os dois também são guardiões solitários da sabedoria que, mesmo a contragosto, indicam o caminho correto para os mais novos. No caso de Morla, a indicação é o Oráculo do Sul, que fica muito longe para Atreyu ir a pé. E como o livreiro disse para Bastian esquecer o livro, Morla diz para Atreyu desistir de sua missão.

A essa altura, as aulas já acabaram, a escola já fechou e um temporal se aproxima, mas Bastian está completamente imerso no livro, sofrendo, torcendo e dando conselhos para seu herói. Melhor propaganda pró-literatura já vista no cinema. Atreyu vaga pelo pântano e, a um passo de desmaiar e ser devorado pelo lobo mau Gmork, é salvo por Falkor, o sensacional dragão da sorte, ícone máximo do filme. Apesar de ser um dragão (com influências chinesas, mais pros lados de "A Viagem de Chihiro"), Falkor parece um enorme e simpático cachorro com movimentos mecânicos e fala mansa. Falkor gosta de crianças, sabe de tudo e dá conselhos para a vida, como: "Nunca desista e a sorte irá ao seu encontro". Falkor representa a esperança e a perseverança. E também o transporte necessário para Atreyu chegar ao Oráculo do Sul.

Com Falkor e o casal de duendes que vive ao lado do Oráculo, Atreyu também reencontra a amizade que o fará seguir em frente. Para atravessar o portal das esfinges, além da amizade, ele vai precisar demonstrar autoconfiança. As esfinges enxergam dentro do coração, armaduras elegantes não adiantam nada. Por um triz, ele consegue. Segunda fase: encarar o seu verdadeiro eu no Espelho Mágico. "Diante do verdadeiro eu, a maioria dos homens foge gritando". Atreyu vê no reflexo a imagem de Bastian. Passando desta fase, finalmente Atreyu chega ao Oráculo do Sul e descobre que, para salvar a Imperatriz, uma criança humana terá que batizá-la com um novo nome.

O vôo de volta de Atreyu e Falkor só perde no quesito "sonho de infância" para as bicicletas voadoras de "E.T.". Mas a turbulência do Nada interrompe o bucólico vôo e lança Atreyu para o mar. Longe de Falkor, ele perde sua sorte e seu amuleto. Lembre-se que Bastian odeia nadar. Atreyu se vê perdido numa praia ao lado do Gigante de Pedra, que está desolado. Seus amigos foram levados pelo Nada e suas mãos fortes e inúteis não conseguiram evitar. Trata-se do melhor discurso sobre impotência que eu já vi. Sobre ver a tragédia acontecer na sua frente e não poder fazer nada a respeito. "Eu fracassei", ele diz, e se entrega para o Nada. Mais um que se deixa consumir pela tristeza. "A História Sem Fim" é também uma baita lição de como lidar com perdas.

Atreyu vê toda sua história pintada na parede de uma caverna, como ilustrações de um livro, e descobre estar no lar de Gmork, o personagem responsável por esclarecer todas as questões abertas até aqui. Por que ele? Ora, porque a maldade sempre ensina. Porque todo conto de fadas tem que ter uma bruxa. Porque a criança tem que encarar o lado negro da força pra saber reconhecer o lado certo. Então quando um Atreyu sem esperanças diz ser incapaz de ultrapassar os limites de Fantasia para encontrar o garoto humano, Gmork dá a aula: "Fantasia não tem limites. É o mundo da fantasia humana. Cada parte, cada criatura é um pedaço dos sonhos e das esperanças da humanidade. Portanto, não tem limites. Fantasia está morrendo porque as pessoas começaram a perder as esperanças e a esquecer os sonhos. Assim, o Nada se fortalece." Entendeu ou quer que eu cole em um powerpoint?

Quando Atreyu finalmente pergunta "o que é o Nada?", Gmork responde com minha frase preferida do filme: "É o vazio que resta" (it's the emptiness that's left). Uma resposta que, para um filme infantil, equivale a um Hamlet completo. E ele complementa, indo além na metáfora política: "É como um desespero que destrói esse mundo. Pessoas sem esperança são fáceis de controlar. E quem tem controle, tem poder". Respeite um filme que abusa da metalinguagem e ainda coloca diálogos densos como este na boca de um lobo mau. Respeite um filme no qual a criança mata o lobo mau e passa o resto das cenas com um machucado sangrando no peito.

Mais uma vez salvo do Nada por Falkor, Atreyu vai ao encontro da Imperatriz com o peso do fracasso sobre seus ombros. Mas a sábia menina diz que ele teve sucesso, pois trouxe a criança humana com ele o tempo todo. A metalinguagem é explícita: "Ele partilha das suas aventuras e outros partilham das dele". Ou seja, Bastian faz parte. Você faz parte. Lendo agora aí no seu computador pode não significar nada, mas tente imaginar o impacto disso em um menino de 7 anos numa sala de cinema.

Fantasia está nas últimas e Bastian entra em conflito: é só uma história, não é real. Devo permanecer criança ou devo crescer? Devo sonhar ou devo manter os pés no chão? Devo ter fé ou devo ser cético? Qual é o momento certo de encarar a realidade e deixar a Fantasia morrer? Diante da súplica da Imperatriz, Bastian escolhe salvar Fantasia e lhe dá o nome de sua mãe, que não poderia ser outro senão Esperança.

Com o último grão que sobrou de Fantasia, Bastian deve fazer desejos para reviver todo o reino. Seu primeiro desejo não é ressuscitar a mãe, como poderíamos supor. É voar com Falkor. Bastian respeita as regras do mundo da imaginação e aceita viver nele. Ele de vinga dos colegas da escola, revê Atreyu e Artax cavalgando epicamente e o Gigante de Pedra feliz e contente com seus amigos. A locução final explica: "Bastian teve muitos outros desejos e viveu muitas aventuras incríveis antes de finalmente retornar ao mundo comum. Mas isso é uma outra história." Ou seja, uma hora ele amadureceu. Só não era o momento certo ainda. Em resposta ao advogado do Homer, só na fantasia a história não tem fim.

O livro mágico dentro do filme é uma resposta às necessidades de quem lê - cada um aprende o que quiser com ele e assimila aquilo a sua maneira. Não é essa a essência da arte, seja o formato que for? No caso de Bastian, "A História Sem Fim" ensinou-o a superar a perda da mãe e, em última instância, a amadurecer no processo. Tudo isso no porão da escola. Então eu pergunto: o que ensinou mais a Bastian, os livros de fantasia ou as aulas de matemática?

No cinema, a história até continuou em sequências fracas, com histórias capengas e péssimos atores. Wolfgang Petersen, o talentoso alemão que dirigiu e co-roteirizou o filme, nunca mais voltou ao reino de Fantasia e agora se tornou diretor de aluguel de filmes como "Tróia" e "Poseidon". Os pequenos atores não ganharam aquele hype retrô dos ex-Goonies, embora merecessem (Noah Hathaway, o Atreyu, e Tami Stronach, a Imperatriz, são excelentes). Mas "A História Sem Fim" é mais do que um filme nostálgico da Sessão da Tarde. É um filme que explica porque eu me emociono sempre com recordações da infância. Voltar pra Fantasia de vez em quando é revigorante, e algumas músicas e alguns filmes têm o dom de me transportar para lá com uma facilidade impressionante.

Se você não teve a sorte de viver esta experiência quando criança, nem tente conferir agora. Você vai rir dos bonecos e dos efeitos e vai se perguntar por que diabos o Nada leva tudo embora menos a árvore onde Atreyu está agarrado. Isso porque você já abandonou Fantasia e já deixou o Nada te dominar. Mas não precisa afundar no Pântano da Tristeza por isso. Graças ao sucesso de "O Senhor dos Anéis", o cinemão está cheio de coisas como "As Crônicas de Nárnia" pra tentar ocupar a vaga, gastando milhões em horas e horas de filme pra tentar passar a mesma mensagem que esta pequena pérola de uma hora e meia passou em 1984. Com alguma sorte e boas indicações, pelo menos nossos filhos ainda podem ter uma infância feliz.

Blade Runner - O Caçador de Andróides

("Blade Runner", 1982, Dir.: Ridley Scott)



Mais cedo ou mais tarde, todo mundo passa por momento de autodescoberta na vida. É o fim da inocência. Quando você descobre que Papai Noel não existe, que todos que você ama um dia irão morrer, que o mundo pode não ser exatamente aquilo que você imagina. É quando você se olha no espelho e se pergunta: afinal, quem sou eu?

Não sei exatamente quando foi a primeira vez em que pensei nisso, mas sei que "Blade Runner" foi o estopim para alguns destes questionamentos, ainda na infância. Assisti pela primeira vez em umas férias de verão, em Itanhaém. Ainda na febre Harrison Ford proporcionada por "Star Wars" e "Indiana Jones", eu e meu primo alugamos o VHS de "Blade Runner" junto com "O Templo da Perdição" e outro ícone existencialista do cinema: "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Mas este só seria parcialmente assimilado uns 10 anos depois. "Blade Runner" não, sua mensagem já plantou a semente da dúvida na minha cabeça logo cedo, e vem rendendo frutos a cada nova revisão, todos esses anos depois.

Isso porque, ao contrário da semiótica kubrickiana, sua mensagem é direta, certeira e universal. A longevidade é relativa. Quanto tempo nos resta? Como encarar a mortalidade? É melhor uma vida longa e covarde ou uma vida curta e intensa? Você sabe realmente quem você é? É a sua memória, o seu passado que faz de você humano ou suas atitudes no presente? O que você faria se encontrasse o seu "criador"? Até que ponto o homem deve avançar na busca pela inteligência e pela emoção artificiais? O homem deve brincar de Deus? Uma máquina pode ter sentimentos? Acompanhe os noticiários sobre robótica e clonagem, você pode se surpreender.

As questões foram levantadas há décadas por um gênio chamado Philip K. Dick, escritor de relativo sucesso que ficou famoso após sua morte. Dick não chegou a ver sua obra "Do androids dream of electric sheep?" no cinema, morreu pouco tempo antes. "Blade Runner" é dedicado a ele postumamente. Se tivesse visto, não teria mudado muita coisa em sua vida. O filme foi um fracasso no lançamento, em 1982. O estúdio fez alterações importantes na obra, inclusive uma narração em off que fez Harrison Ford renegar o filme durante muito tempo. Seu personagem deixou de ser um homem com dúvidas existenciais para se tornar o que eu e meu primo queríamos ao alugar o filme na época: um detetive heróico. Em 1991, finalmente "Blade Runner" foi relançado como um director's cut (a reedição do diretor). Entre outras pequenas alterações, saiu a narração em off e entrou a cena do sonho com o unicórnio.

Mesmo antes disso, com o tempo "Blade Runner" encontrou seu público, virou fenômeno na era do VHS e se tornou "cult". Foi a primeira vez que li a palavra "cult". Também foi a primeira vez que li a palavra "noir", gênero dos policiais clássicos do cinema, com suas mulheres fatais, detetives canalhas e o forte contraste entre luzes e sombras. Ridley Scott resolveu criar a primeira ficção científica noir do cinema e fez história. Outras obras de Philip K. Dick seriam adaptadas nos anos posteriores, mas foi só quando Steven Spielberg aprendeu a lição, copiou a fórmula e retomou o noir em "Minority Report" que outra obra-prima surgiu.

"Blade Runner" tornou-se referência, principalmente na estética futurista criada pelo designer Syd Mead, com seus arranha-céus claustrofóbicos, as chaminés das indústrias, a chuva que não para, os carros voadores, os neons, a publicidade onipresente, a China tomando conta da Los Angeles de 2019 e a certeza de que Ridley Scott foi a maior contribuição da publicidade ao cinema. O visual influenciou toda uma geração, mas "Blade Runner" não foi só fundamental esteticamente. Para se tornar um marco dos anos 80, conceitualmente, o filme mostrou que uma ficção científica poderia ser cerebral e filosófica sem perder o ritmo de suspense e ação. 17 anos antes daquela farsa geek chamada "Matrix", Ridley Scott ensinou a fazer você pensar enquanto se segura na poltrona, tenso.

Estamos no início do século 21. A Tyrell Corp. criou os robôs da série Nexus, idênticos aos humanos. Eles são conhecidos como Replicantes e usados em exploração espacial, na colonização de planetas. A Terra é um lugar intragável e só os perdedores permanecem por aqui. Mesmo assim, cansados do trabalho escravo, os Replicantes se rebelam e alguns voltam para o nosso planeta sujo em busca de respostas. Os blade runners são os policiais encarregados de caçá-los e "aposentá-los", eufemismo para "matar". Curiosidade: o nome "blade runner" não existe no livro de Philip K. Dick. Foi "emprestado" de outro livro de ficção, "The Bladerunner", texto escrito por Alan E. Nourse e adaptado para o cinema pelo escritor beatnik William S. Burroughs já com o título "Blade Runner - A Movie", mas jamais produzido de fato. Nos créditos, Ridley Scott agradece a cortesia.

Quando chegamos à Los Angeles de 2019, o blade runner Holden (Morgan Paull) está interrogando o suspeito Leon Kowalski (Brion James). A primeira cena depois da apresentação da caótica cidade é a de um olho. Segundo o teste Voight-Kampff aplicado nos suspeitos, é no olhar que está a verdade. Assim como em "Alien", o prenúncio da desgraça vem com as batidas do coração. A sessão acaba mal, depois de Leon não aceitar bem uma pergunta sobre sua mãe. Holden é baleado e seu chefe, Bryant (M. Emmet Walsh) convoca o blade runner aposentado Rick Deckard (Harrison Ford) para a ingrata missão de encontrar e "aposentar" quatro Replicantes foragidos. Os quatro andróides são inteligentes, fortes, têm emoções humanas e um dispositivo de segurança: apenas quatro anos de vida. Aí você pergunta: se a data de validade já estava expirando, qual a necessidade de caçá-los? Bem, minha resposta não justifica eventuais falhas no roteiro, mas "Blade Runner" é uma viagem de autoconhecimento. A jornada é mais importante do que a chegada, ou do que a missão em si. Apesar do subtítulo "O Caçador de Andróides", não se trata de um jogo de gato e rato. O que coloca o filme em pé de igualdade com outro clássico dos anos 80, "Coração Satânico". Nunca tinha pensado nisso, mas os filmes são similares nesse sentido.

A primeira missão de Deckard é testar a máquina do Voight-Kampff em um Nexus 6 que vive na Tyrell Corp. Essa primeira missão já soa como pegadinha de Bryant e seu braço direito, o sinistro Gaff (Edward James Olmos), um homem que aparenta saber demais e é figura-chave no mistério que se esconde atrás da cortina em "Blade Runner". A missão ainda nem começou, mas o roteiro já brinca com a relação homem/máquina. Quando Deckard está aprendendo sobre os fugitivos e o líder Replicante Roy Batty (Rutger Hauer) aparece na tela, ele pergunta "o que é isso?" e não "quem é esse?". Quando Bryant pede para que ele teste a máquina, Deckard pergunta "e se a máquina não funcionar?", uma questão que fica sem resposta até o fim do filme. E finalmente temos Gaff, que cria origamis, seus bonequinhos de papel, e vai deixando-os pelo caminho, em uma metáfora nada sutil sobre a vida criada pelas mãos do homem.

Na Tyrell Corp., o genial cientista, designer de cérebros e candidato a Deus conhecido como Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel) pede para que Deckard teste a máquina em um humano antes, indicando a sua sobrinha, Rachael (Sean Young). Rachael se move como andróide, é fria, de pele macia e perfeita, e responde às perguntas com uma certeza absoluta demais para ser humana. Você não precisa ser blade runner pra saber que ela é uma Replicante. Mas Rachael não sabe, porque ela tem memórias falsas implantadas - um dos temas preferidos de Philip K. Dick, vide "O Vingador do Futuro" de Paul Verhoeven, um filmaço que infelizmente envelheceu mal, ao contrário de seu meio-irmão "Blade Runner". As memórias implantadas dão um background emocional ao robô e o tornam perfeito. Afinal, se ele tem sentimentos, o que o diferencia de um ser humano? Em uma atitude comovente para provar que é humana, Rachael vai até o apartamento de Deckard com fotos da infância. O cruel detetive rebate suas provas e Rachael chora, devastada. Quem é humano aqui?

Como na cena acima, o roteiro escrito por Hampton Fancher e aperfeiçoado por David Peoples usa uma série de paralelismos para construir esses conflitos. Batty e Leon descobrem, através do chinês que fornece olhos para a Tyrell, que o projetista genético J. F. Sebastian (William Sanderson) pode ajudá-los. E não é por acaso que Sebastian sofre de envelhecimento precoce. Com 25 anos mas aparentando muito mais, ele vive solitário com os bonecos que ele mesmo cria. "Eu faço amigos", ele diz em determinado momento. A sedutora Replicante Pris (Daryl Hannah) usa tudo isso para se aproximar e fazer com ele os ajude a entrar na Tyrell Corp., onde Batty pretende ficar cara a cara com seu criador.

Enquanto isso, Deckard segue no encalço dos demais Replicantes. Aos 42 minutos de filme, ele adormece ao piano e sonha com o unicórnio. Na sequência, analisando uma foto encontrada no apartamento de Leon com seu arcaico photoshop com comando de voz, Deckard chega até o bar de Taffey Lewis, onde a dançarina exótica Zhora (Joana Cassidy) se apresenta com sua cobra artificial. Fiel ao espírito do livro original e da grande maioria das ficções distópicas, tudo é artificial em "Blade Runner". A cobra, a coruja, os personagens, as memórias, tudo "fake plastic trees" do Radiohead. Depois de apanhar bastante dela (ele apanha mais do que Daniel Sam ao longo do filme) e de persegui-la pelas ruas superlotadas de LA, Deckard a "aposenta" em uma belíssima e melancólica sequência. Zhora se recusa a morrer e quebra uma série vitrines até encontrar seu destino em meio a manequins tão falsas quanto ela.

Não demora para Leon buscar vingança. Deckard toma outra surra. Mas quando Leon solta a frase imortalizada pelo Guns N' Roses em "Welcome to the Jungle" ("wake up, time to die!"), Rachael aparece na multidão e o mata. De volta ao apartamento, eles estão tremendo. "Ossos do ofício", diz Deckard. "Eu não sou do ofício", diz Rachael. "Eu SOU o ofício". Começa um duelo psicológico entre os dois. Rachael pergunta se ele já fez o teste em si mesmo. Deckard força um beijo, tenta arrancar alguma emoção daquela face gélida, quer provar que ela pode ser humana. A trilha sonora antológica de Vangelis, uma das mais marcantes da década de 80, cria o clima perfeito.

De volta ao prédio de Sebastian, Pris esconde-se com sua maquiagem branca e sombra preta pesada nos olhos, uma imagem icônica. Pris é uma Barbie do inferno, capaz de botar medo, seduzir e ainda ser irônica soltando um "penso, logo existo" que não poderia faltar no contexto do filme. Coagido, Sebastian leva Pris e Batty ao encontro do criador, o Dr. Tyrell.

O que Roy Batty tem a lhe pedir é simples: mais tempo de vida. Tyrell explica que é cientificamente impossível. Batty não foi feito para durar. A chama que arde mais forte dura menos. "Comemore o tempo que tem", essa espécie de "carpe diem" é a mensagem final do cientista antes de pagar por sua pretensão de querer ser divino. Em uma sequência primorosa à luz de velas e intensa conotação religiosa, Roy Batty ensaia uma confissão diante de seu criador, lhe dá um beijo e o mata com as próprias mãos, assumindo-se como uma espécie de anti-Cristo deste novo Deus cientista. J. F. Sebastian também vai dessa pra melhor, mas Ridley Scott nem perde tempo mostrando como. Porque Deckard está indo para o prédio de Sebastian para o clímax. E para apanhar mais um pouco.

Camuflada entre os bonecos de Sebastian, Pris é mais uma Replicante a encher Deckard de porrada, com direito a chave de perna e ataques acrobáticos. Porém, o blade runner tem uma arma de fogo. E quando Pris é alvejada e cai, ela se debate como um inseto, como um robô com defeito, deixando qualquer traço humano para trás. A única diferença entre sua agonia e a do robô Ash de "Alien" é que Pris tem sangue vermelho. Ridley Scott adora máquinas defeituosas.

Agora falta Roy Batty. O confronto final entre Batty e Deckard é um dos mais significativos duelos do cinema. Você sabe que a coisa vai além de uma simples luta quando Batty grita "venha Deckard, me mostre do que você é feito". De caçador, Deckard torna-se uma presa acuada. De caçado, Batty torna-se um animal caçador enfurecido, uivando entre as luzes e goteiras e corredores do prédio imundo. Sua vida está chegando ao fim e ele sabe disso. Nada bota mais medo do que um vilão sem nada a perder. Mas será que Roy Batty é mesmo um vilão?

Chegamos ao clímax com Deckard pendurado no prédio, em uma tentativa frustrada de fugir. Batty diz: "Uma experiência e tanto viver com medo. Ser um escravo é assim." E salva Deckard da queda fatal - a demonstração definitiva de sua humanidade. Segue seu comovente monólogo final, seu epitáfio, seu desabafo poético, seu momento Marlon Brando em "Apocalipse Now": "Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da costa de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhauser. Todos estes momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer." E Batty morre diante de Deckard.

Mas sua missão ainda não acabou. Um Replicante ainda vive: Rachael. O misterioso Gaff aparece para dizer mais uma frase dúbia a Deckard: "fez um serviço de homem!". E completa com a minha citação preferida de todo o filme: "É uma pena que ela não vá viver. Mas afinal, quem vive?". Deckard corre para casa e encontra Rachael viva. Na fuga, ela pisa em um origami de unicórnio. A frase de Gaff volta à mente de Deckard. Na primeira versão do filme, a narração de Deckard explicava que Gaff tinha deixado ela viver. E o casal partia feliz para o Norte em uma viagem por paisagens que não tinham nada a ver com o resto do filme - usaram cenas que sobraram de "O Iluminado", que vergonha. Na versão do diretor, o origami remete diretamente ao sonho de Deckard, o que dá a entender que ele próprio pode ser um Replicante de memórias implantadas. A questão fica no ar, quando Deckard e Rachael fecham a porta do elevador.

Presença garantida em meus top 5 filmes favoritos desde sempre, "Blade Runner" é a prova definitiva de que um filme com um ator heróico empunhando uma arma na capa pode sim ser uma obra-prima. Um filme dirigido por um ex-publicitário, também. Uma ficção científica existencialista que não seja do Kubrick, também. Caso você encontre um drama iraniano que levante tantas questões sobre a humanidade como as que eu citei aqui, gentileza indicar. Não para mim, mas para algum moleque alugando filmes nas férias de verão. Vamos ver se ele abraça.

"Blade Runner" também ganha inúmeros pontos por ter sobrevivido ao tempo, permanecendo atual e inovador até hoje, e se Ridley Scott e Harrison Ford tiveram muitos outros sucessos, cabe a "Blade Runner" ainda espalhar por aí o nome de Philip K. Dick, meu autor preferido de ficção científica. Ainda que seu Deckard não tivesse nenhum traço heróico que valesse a escalação de Harrison Ford (o maior astro de cinema da época), a essência do autor está em toda parte, em detalhes como aquele último plano, da porta se fechando. Uma cena também parecida com o final de "Coração Satânico", com a diferença que, naquele caso, Mickey Rourke estava certamente descendo para o inferno. Já o destino de Deckard e Rachael permanece incerto, como o destino de qualquer um de nós. Será que eles vão viver? Afinal, quem vive?

Alien - O 8º Passageiro

("Alien", 1979, Dir.: Ridley Scott)



Ao contrário da grande maioria das séries do cinema, cada filme da série "Alien" tem uma personalidade diferente, de acordo com seu diretor. Sei lá se alguém planejou que seria assim, mas acabou sendo. "Aliens - O Resgate" é uma ficção de ação no melhor estilo "O Exterminador do Futuro", por causa do James Cameron. "Alien³" é um suspense claustrofóbico muito melhor que o posterior "O Quarto do Pânico", também de David Fincher. "Alien - A Ressurreição" é... bem, eu só consigo me lembrar das barbaridades cometidas pelo Jean-Pierre Jeunet, como aquele bebê híbrido de alien e humano, então deve ser mesmo a "Amélie Poulain" da série. Mas tudo começou com Ridley Scott em 1979 no filme que definiu as regras do jogo: "Alien - O 8º Passageiro". Como Scott ainda não era tão conhecido na época (tinha feito apenas "Os Duelistas" dois anos antes), não dá pra dizer que havia um estilo autoral ali. Mas, olhando hoje, eu definiria "Alien" como um filme de monstro, um filme de terror. Um filme B que deu certo.

Nomes como Dan O'Bannon (roteirista e consultor do visual) e Walter Hill (co-produtor) apóiam minha tese. "Alien" tem o espírito de um filme B. Hoje em dia, qualquer cineasta sem talento como Paul W.S. Anderson e Stephen Sommers consegue uma fortuna de orçamento pra rodar porcaria. Naquela época, no final dos anos 70, os discípulos de Roger Corman despontavam com clássicos como este - ainda que "Alien" disfarce bem seu caráter B com a direção elegante de Ridley Scott e sua preocupação com o visual. Scott veio da publicidade britânica, então de estética ele entende. Assim como "Blade Runner", o design de "Alien" marcou época. O layout do monstro mais legal do cinema e dos cenários góticos foi criação do designer suiço H. R. Giger, sua cabeça proeminente foi criada por Carlo Rambaldi (o criador de "E.T.") e o "concept design" do filme teve pitacos de gente como o desenhista fracês Moebius. Ninguém acerta assim do nada.

O primeiro "Alien" definiu o gênero "terror no espaço", inspirando todo e qualquer filme posterior com uma tripulação perdida no espaço enfrentando ameaças desconhecidas, como "O Enigma do Horizonte" e "Sunshine - Alerta Solar". Assisti pela primeira vez na TV, uma das várias indicações do crítico Inácio Araújo na Folha de São Paulo. Lembro bem da foto enorme que ilustrava o texto, com John Hurt vestido de astronauta iluminando um casulo asqueroso. Uma cena impactante já na foto de divulgação. Foto esta que eu devo ter até hoje, na minha coleção de fotos de filme guardada no maleiro lá de casa. "Alien" me lembra muito as revistas de sci-fi e filmes de terror da época em que o assisti (final dos anos 80), quando não havia internet e DVD e portanto making of era um negócio raro. A Set tentou lançar uma revista spin off para explorar o gênero, a Terror & Ficção, que não vingou muito. A maioria das tais revistinhas era importada, e era bom ter amigos com o mesmo gosto pela coisa para conseguir arrumá-las. Hoje o making of tornou-se a coisa mais normal do mundo, mas lá atrás ver a cabeça falsa do Ian Holm decepada com sangue de robô ao redor era um momento glorioso. Portanto, quando falo de "Alien", falo de toda uma experiência complexa de um moleque descobrindo a graça da ficção e do terror, de todo um universo que vai da diversão gore do Freddy Krueger à antropologia filosófica de "2001 - Uma Odisséia no Espaço".

Como "2001", "Alien" tem muitos silêncios. A trilha de Jerry Goldsmith aparece pouco e, nas cenas mais pesadas de suspense, são os batimentos cardíacos que dão o tom. A abertura usa um travelling debaixo da nave Nostromo, igual o começo de "Guerra nas Estrelas", enquanto o título se forma. Na sequência, passeamos pelo interior da nave, conhecendo o território onde o pau vai comer em breve, enquanto a tripulação de sete passageiros hiberna. Perceba que "Alien - O 8º Passageiro" é um título muito bom, mas nunca ninguém questionou a presença do gato Jones. Ele sim era o oitavo passageiro. O alien era mais um clandestino, um imigrante ilegal. Nunca foi um passageiro. Dito isso, vamos a eles: os passageiros de fato.

A primeira meia hora de filme é uma grande apresentação dos personagens. "Alien" segue a fórmula dos filmes-catástrofe que apresentam os personagens para depois ir matando-os um de cada vez. Não é a mesma coisa dos slashers de Freddy Krueger ("A Hora do Pesadelo") e Jason Vorhees ("Sexta-Feira 13"), porque nesses casos a personalidade das vítimas pouco importa. Aqui, a referência maior são os filmes-catástrofe dos anos 70, como "Inferno na Torre" e "O Destino do Poseidon", com seus elencos estelares indo pro vinagre. Mesmo que os personagens não tivessem personalidades bem definidas, você torcia para o seu ator favorito não morrer tão cedo. Ou pelo menos para não ter uma morte muito sofrida.

Em "Alien", as vítimas são: Dallas, capitão e líder (Tom Skerritt); Ripley, a moça destemida (Sigourney Weaver); Lambert, a moça medrosa e desesperada (Veronica Cartwright); Parker, o negão operário injustiçado (Yaphet Kotto); Brett, o operário sem personalidade (Harry Dean Stanton); Kane, o explorador curioso (John Hurt) e Ash, o cientista frio e calculista (Ian Holm). Nenhuma grande patente militar à bordo, lembrando que a Nostromo é simplesmente um cargueiro e não uma nave de propósitos bélicos. São todos funcionários da tal Companhia. Temos até conflitos de causa operária ali - Parker quer renegociar seu contrato, é quase um sindicalista, um reflexo dos politizados filmes norte-americanos sobre o proletariado tão comuns nos anos 70. Não tem ninguém com pinta de herói. Assim, apesar de algumas dicas do roteiro, coloque-se na época do lançamento do filme (sem sequências e ícones pré-estabelecidos) e você não tem como saber quem vai sobreviver - se é que alguém vai. Dallas é o líder, mas John Hurt talvez fosse o nome mais conhecido do elenco, então não sei quem apostou suas fichas na Ripley de Sigourney Weaver, que viria a se tornar a personagem feminina mais fodona do cinema.

O sono dos sete passageiros é interrompido pela Mãe, a inteligência artificial que comanda a Nostromo em sua jornada de volta à Terra. Um HAL 9000 menos participativo, mas tão mal intencionado quanto. Apesar do computador da era MSX com caracteres verdes, a opção por mostrar a nave sempre imersa na escuridão do espaço, além de aumentar a angústia constante do filme, torna o futuro apresentado convincente até hoje. Algo que sempre me incomodou na série "Star Trek", por exemplo. Eles mostram demais. "Alien" esconde tudo com sombras, vapores e luzes azuis. Quando a Mãe intercepta sinais de vida em um planeta ali perto, seguindo as diretrizes da Companhia, eles são obrigados a investigar. Após o tradicional problema na aterrissagem, a tensão começa a tomar conta de verdade quando Dallas, Lambert e Kane partem para a exploração do planeta, monitorados pelo pessoal da Nostromo e com as câmeras do capacete mostrando a ação (James Cameron usaria muito isso no segundo filme). Logo, Kane encontra a colônia de embriões e volta para a nave com um novo amigo grudado na cara. A coerente Ripley não quer autorizar a volta do colega contaminado, mas Ash libera a entrada e o resto é história.

O ovo de alien e seu organismo hospedeiro são das coisas mais nojentas já apresentadas pelo cinema. A se ressaltar os símbolos fálicos tanto no tal organismo quanto no formato da cabeça do alien. Deve haver algum estudo relacionando o design de "Alien" à ginecologia e à urologia, algo que explique porque sentimos nojo deles imediatamente utilizando conceitos básicos de psicologia. Não é só a gosma, eu tenho certeza. Kane é colocado na maca com aquela mistura de aranha com lagosta na cara, e um tentáculo estrategicamente apertando sua garganta. Uma imagem perturbadora e asfixiante. Logo vão descobrir que o bicho tem sangue ácido. Logo ele vai ter sumido e Kane vai despertar com fome. Sempre me lembro daquela espécie de repolho que ele devora na clássica cena do nascimento do alien (tão bem parodiada por Mel Brooks em "S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço", com direito à participação especial do próprio John Hurt). Também graças à cena eu sempre fico aguardando algum efeito colateral quando me recupero de alguma doença. Kane engasga e convulciona. John Hurt capricha nos espasmos, mas é na cara de Veronica Cartwright que o sangue explode quando o "bebê" nasce. Lambert é a "scream queen" do filme, a responsável por gritar e se descabelar diante do horror. Quando o alienzinho dá as caras, ainda na forma recém-nascida, já estamos com quase 1 hora de filme - lição aprendida com o "Tubarão" de Spielberg: mostrar pouco do monstro, segurar a tensão, guardar o suspense pra mais tarde. Kane é a primeira vítima. Faltam seis.

Com o alien solto na nave, começa a caçada - embora você não saiba quem exatamente está caçando quem. Ash aparece com o localizador, outra ferramenta de suspense que será muito usada no resto da "saga". É um dos muitos elementos que viriam a se tornar clichês do gênero. Afinal essa é uma das funções do clássico: criar clichês. Como o tradicional susto do gato. O bichano escapa e Brett vai atrás dele. Quando as batidas de coração voltam, você já sabe que ele vai morrer. Quem volta para salvar o bicho sempre morre. Começa o desfile de mortes criativas, uma melhor que a outra. Brett encontra seu destino em um cenário gótico, com correntes, ganchos e água pingando. Pela primeira vez o alien aparece em sua forma adulta (como ele cresceu tão rápido?), amedrontador, escondido nas trevas com sua carapaça brilhante e toda a baba que lhe é peculiar. Seu design mistura tudo que pode causar repulsa, elementos gore (vísceras, gosmas), esqueleto, casca de insetos... e de alguma forma o conjunto final ainda consegue ser elegante, o tipo de estátua que você teria na estante. Quer dizer, eu teria. O close no rosto do gato enquanto Brett é dilacerado é cortesia do talentoso Ridley Scott e tem um toque de "Blade Runner" ali, na impassividade do gato perante a tragédia. Brett é a segunda vítima. Faltam cinco.

O Capitão Dallas resolve caçar o alien no duto de ventilação, outro elemento que se tornaria clichê. Todo filme de terror e ficção que se preze deve ter a sua cena no duto de ventilação. De preferência com algum sacrifício heróico. O duto é claustrofóbico por natureza, você não tem como fugir dele. Quando juntam duto + localizador, o resultado é pânico. De novo é Lambert a responsável por este pânico, acompanhando o sinal do alien se aproximando rapidamente do sinal de Dallas. O líder que deveria ser o herói do filme já era. Faltam quatro.

Na ausência do Capitão, Ripley chama para si a responsabilidade. Sua primeira ação como líder dos sobreviventes é intelectual: ela pergunta ao computador de bordo o que está havendo e descobre que a Companhia quer o alien vivo. Regra básica em filme de monstro: em algum momento, por pior que seja a ameaça assassina, é preciso mostrar que o ser humano é sempre a pior espécie. No caso, Parker tinha razão em sua paranóia proletária: os executivos ausentes da Companhia é que são os verdadeiros vilões. Eles deixaram o monstro entrar. Eles querem o bicho vivo para a divisão de armas biológicas - algo mencionado rapidamente aqui, mas que fica bem claro nos outros filmes da série. Portanto, a tripulação é descartável. Tem início uma luta brutal entre Ripley e Ash, que defende os interesses da Companhia. Quando Ash sangra um sangue branco, descobrimos que ele é um andróide, um replicante de força superior, que exige a união dos três humanos para ser liquidado. Ok, Ash está morto. Faltam três.

Os sobreviventes decidem explodir a nave e fugir na cápsula de emergência. Ripley ainda perde tempo salvando o maldito gato Jones, enquanto Parker e Lambert vão arrumar as malas. Deus sabe como a personagem mais desesperada sempre tem a morte mais sofrida nos filmes-catástrofe. O destino de Lambert é cruel, ela é quase estuprada pelo alien, mas não sem antes acompanhar o triste fim do colega Parker, empalado com requintes de crueldade bem na sua frente. Se você tinha alguma dúvida de quem era a heroína do filme desde o princípio, a única com atitudes nobres e coerentes o tempo todo, suas dúvidas acabaram, porque só sobrou Ripley viva. Além do gato, é claro. E aos 1h37 de filme, Ripley encara o alien pela primeira vez. Desespero total. A contagem regressiva está rolando, luzes de emergência piscam, vapores explodem e a câmera corre pelos corredores da Nostromo acompanhando Ripley. Muitas vezes o design dos corredores se confunde com a textura da criatura, o que não é por acaso. O alien pode estar em qualquer lugar. Inclusive dentro do módulo de fuga, o que Ripley só vai descobrir no epílogo, quando todos acham que já está tudo bem. Aquele susto final que nós tanto adoramos.

Antes disso, porém, Sigourney Weaver faz seu antológico striptease, preparando-se para hibernar. Ripley de calcinha cintura-baixíssima (pagando cofrinho!) e top transparente é uma cena tão emblemática para os fãs homens heterossexuais de sci-fi quanto a clássica Léia Escrava de "O Retorno de Jedi". Depois de tanto sofrimento e tantas demonstrações de força com aquele lança-chamas na mão, você até tinha esquecido que a Sigourney Weaver era a maior gata em 1979. O que nos leva a um assunto que não foi discutido o suficiente: a sexualidade de Ripley. Ela é uma guerreira destemida, é chamada pelo segundo nome assexuado (o primeiro é Ellen, mas eu nem sei como tenho essa informação guardada até hoje, porque nunca o utilizam) e despe-se de qualquer traço de vaidade ao longo da série (principalmente nos cortes de cabelo), apesar da insinuação de alguns romances - ou pelo menos o mínimo afeto - com o sexo oposto. Mais do que os affairs masculinos, é no instinto materno que Ripley prova sua feminilidade, seja com a menina do segundo, com o alien do terceiro ou, vá lá, com o gato do primeiro. Nenhum homem salvaria aquele gato. Só o Brett, que morreu tentando. Ripley talvez seja mais do que a mulher mais fodona do cinema: ela pode ser um protótipo da mulher moderna. Guerreira, inteligente, independente e sobrevivente. Ela nem precisa de um macho pra salvar sua pele. Regozijai-vos, feministas. E coloquem uma estátua do Ridley Scott na sede do clube, porque depois ele ainda faria "Thelma & Louise" e "G.I. Jane".

Retomando, a (agora) sexy Ripley encontra o alien dentro do módulo, a Nostromo já foi pelos ares, e após uma sequência de suspense quase insuportável o bicho encontra seu destino na turbina da pequena nave. Nossa heroína vai dormir o sono dos justos sem saber se um dia será resgatada e, revendo hoje, você pensa: que sacanagem, ela ainda vai passar por coisa muito pior. Essa é outra diferença de "Alien" com outros filmes de monstros: a heroína é sempre a mesma, o vilão nunca se torna personagem principal, nem vira caricatura. Os aliens são o karma de Ripley. Não há explicação melhor.

"Alien - O 8º Passageiro" tanto é um filme de monstro que não apresenta nenhum conceito de ufologia, não é referência no assunto, não foi citado no "Arquivo X". Nunca soubemos nem a raça do bicho, de onde ele veio, para onde ele vai. Ele só é definido como uma máquina de matar, um organismo perfeito, uma arma indestrutível, um assassino sem moral e sem remorso. "Alien" virou sinônimo de alienígena malvado que vai te comer, da mesma forma que "E.T." é um simpático visitante do espaço, mais do que uma sigla. Infelizmente, a série não expandiu sua mitologia, como aconteceu com "O Exterminador do Futuro", que expandiu a ponto de não precisar mais do Schwarzenegger. James Cameron chegou a reclamar dos rumos que David Fincher deu à série no terceiro episódio, mas ele reclamava de barriga cheia. "Alien" caiu nas mãos erradas e até virou sparring do Predador nessa nova série idiota. "Alien Vs. Predador", isso sim é cinema B. "Alien - O 8º Passageiro" não. O melhor da série é também o filme de terror no espaço definitivo, lá em cima, onde ninguém pode ouvir você gritar. Esse é cinemão dos bons.

E.T. - O Extraterrestre

("E.T. - The Extra-Terrestrial", 1982, Dir.: Steven Spielberg)



Em 1982 eu tinha 5 anos. Não lembro se já tinha ido ao cinema antes. Talvez sim, provavelmente alguma coisa dos Trapalhões. Mas minha primeira lembrança de cinema é na extinta sala do Shopping Ibirapuera, em São Paulo, vendo "E.T. - O Extraterrestre". Havia muita fila: o filme era um fenômeno, a maior bilheteria de todos os tempos, ganhou até capa da revista Veja. Foi lançado em junho nos EUA, mas só chegou no Brasil em dezembro, dando muito tempo de aumentar as expectativas. Vim de Leme pra São Paulo com a minha família pra ver. A fila durava horas. Lembro perfeitamente de ter dormido nela, reclamado, chorado. Meus pais me compraram um bonequinho do E.T. que eu tenho até hoje - minha maior relíquia cinematográfica, sem dúvida. Eu não tenho palavras pra descrever a sensação que tive quando o filme finalmente começou. Foi como se minha vida estivesse começando naquele momento - pelo menos a vida da qual consigo me lembrar. Por isso cada fotograma de "E.T." funciona como uma regressão, uma volta à infância, um recomeço de vida, algo assim, místico. A crítica costuma classificá-lo como "fantasia escapista", mas pra mim nada é mais real do que esta sensação.

"E.T." foi o campeão de bilheteria de sua época, batendo "Star Wars" e "Tubarão", o filme que inventou os blockbusters. Steven Spielberg e George Lucas, amigos, pareciam disputar o topo ano a ano. "E.T." foi um grande filme-evento quando saiu nos cinemas, e anos mais tarde o seu lançamento em vídeo, pela saudosa CIC Vídeo (que lançava tudo da Paramount e da Universal) seria outro grande evento. Foi o primeiro VHS a vir com selo holográfico anti-pirataria. Nas locadoras, a fila para locação era tão grande quanto aquela do Shopping Ibirapuera. Então fui rever "E.T." na casa do meu vizinho, que tinha TV 29 polegadas e vídeocassete estéreo, junto com um monte de gente da vizinhança - outro grande evento. Mais tarde ele seria reprisado à exaustão na TV, principalmente na época do Natal. Passou tanto que, mesmo que não seja reprisado há anos na TV aberta, muita gente ainda acha que continua passando. Reprises na TV sofrem com essa inércia no subconsciente coletivo.

Em 2002, o filme foi relançado no cinema em comemoração aos seus 20 anos, com o tradicional "tapa" nos efeitos especiais. O personagem ganhou retoques digitais, sua nave ficou mais moderna e eu não quis ver. Fiquei com medo da decepção. Eu já tinha visto o E.T. original no cinema, não precisava correr esse risco. Ao contrário dos outros lançamentos, dessa vez não foi um grande evento. Aparentemente ninguém se importou. "E.T." perdeu sua magia em tempos de "O Senhor dos Anéis", e o posto de maior bilheteria da história já era de "Titanic" desde 1997. Apesar de não ter visto o relançamento atualizado, fui atingido pela frustração. É sempre uma porcaria se sentir velho e ultrapassado. E com esse sentimento na cabeça, relutei em comprar o DVD com a tal reedição, esperando que talvez Spielberg tivesse a bondade de fazer como seu amigo Lucas, lançando uma edição dupla com o filme original de "bonus track". Não aconteceu até hoje. Mas minha irmã me presenteou com "E.T." no meu aniversário de 31 anos. Depois dos 30, sentir-se velho e ultrapassado é uma constante do dia-a-dia. Quer dizer, você vai ao cinema ver o "Speed Racer" e tem que aguentar o Mach 5 sendo trocado por um Mach 6 tunado, esse tipo de coisa. Assim, rever "E.T." agora não poderia trazer mais riscos a minha memória afetiva. Eu estava pronto para ele.

A primeira impressão de "E.T." é que se trata de um filme de suspense e terror. Spielberg usa muita fumaça (vapor, neblina, gelo) para caprichar nessa atmosfera o filme todo. Numa mata escura, seres alienígenas chegam ao nosso planeta para explorar o ambiente. Você ainda não sabe se eles são pacíficos, principalmente se você tem 5 anos e está acostumado aos contos de fadas - como Guillermo Del Toro já nos ensinou, eles são todos histórias de horror. Durante muito tempo tive medo de florestas escuras (e quem não teve, afinal?) e ficava observando todos aqueles matagais ao lado da Rodovia Anhanguera quando viajava de noite, pensando se havia ETs ali, perdidos de suas naves e procurando amigos terráqueos. Quando os primeiros humanos aparecem em cena, vemos apenas sua silhuetas e eles carregam lanternas. Um deles leva um chaveiro pendurado na calça, que faz barulho quando ele corre. Eles são ameaçadores e perseguem os ETs na floresta. Eles são adultos, e adultos são como a professora do Charlie Brown, não mostram o rosto e falam numa língua só deles. Então você se identifica com os pequenos ETs apavorados, porque Spielberg coloca a câmera na altura de suas cabeças, na altura de uma criança, e porque os adultos só aparecem pra estragar a festa, como sempre, esses malditos.

E.T. é uma criança curiosa e, fisionomicamente, não se parece com os alienígenas ufologicamente corretos de "Contatos Imediatos do 3º Grau". Ele não tem cabeça oval e corpo esguio e olhos profundos e negros. O E.T. da roteirista Melissa Mathison, modelado por Carlo Rambaldi e manipulado por Dennis Muren tem cabeça chata, é gordinho e desengonçado. Ele não tem pernas, seus pés são horríveis e seus braços desproporcionais. Ele estica o pescoço, acende o dedo indicador e se comunica com seus semelhantes através do coração - uma metáfora que dispensa comentários. Sua nave não tem cara de disco voador, é redonda, parece algo saído de um circo. "E.T.", o filme, se distancia dos conceitos de "Contatos Imediatos" para se tornar mais fábula e menos um objeto de estudo dos Fox Mulders lá fora. Não à toa, é "Peter Pan" que será evocado diversas vezes ao longo do filme. Lembre-se: até determinado ponto de sua carreira, Steven Spielberg era aquele cineasta que se recusava a crescer.

Fugindo da mata, E.T. encontra refúgio numa casa de subúrbio de uma cidadezinha norte-americana, cenário preferido de nove entre dez sucessos dos anos 80. O lar de Elliott (Henry Thomas, one hit wonder) também é bem típico. Seu pai fugiu com a amante para o México. Sua mãe, Mary (Dee Wallace) luta para criar os três filhos sozinha: além de Elliott, o mais velho Michael (Robert Macnaughton) e a pequena Gertie (Drew Barrymore). Devo mencionar que me apaixonei pela Drew Barrymore (a Dakota Fanning da época) ao ver o filme pela primeira vez, de tal maneira que só Simony conseguiria superar. O elenco infantil mais uma vez prova o imenso talento de Spielberg para dirigir crianças. Muitos anos mais tarde, Drew Barrymore sairia na Playboy e o cineasta lhe enviou de presente uma toalha, com um bilhete escrito "se cobre, menina!", numa atitude bastante "fofa". A casa da família é uma bagunça, a ausência da figura paterna é evidente. Como em outros filmes emblemáticos dos anos 80 como "Labirinto" e "A História Sem Fim", lares desfeitos geram crianças fantasiosas. Como em outros filmes emblemáticos dos anos 80 como "Os Goonies", "Conta Comigo" e "Os Garotos Perdidos", uma turma de amigos em bicicletas BMX ajuda bastante a superar as dificuldades. Mas pertencer a uma turma é difícil, e a princípio Elliott se vê rejeitado pelos amigos, igualzinho ao E.T. Já a ausência paterna deve ser Spielberg pensando como a família do personagem de Richard Dreyfuss se virou depois que o pai se mandou para uma viagem sem volta espaço afora, no final de "Contatos Imediatos". O cineasta nunca superou esse arrependimento.

A primeira aparição do novo E.T. versão 2002, gritando no milharal, incomoda. Ele é mais malemolente, ágil, serelepe. Igual o Yoda e o Jabba das novas versões de "Star Wars", causa a mesma estranheza. Ora, Spielberg, E.T. ganhou espaço no imaginário popular como uma criatura dura, travada, de movimentos limitados, pra que mexer em time que está ganhando? Passado o incômodo inicial, porém, você se acostuma e deixa pra lá. Seus longos dedos buscando os docinhos que Elliott deixa na casa feito João & Maria não são digitais, eles são toscos e lentos, e por isso fascinantes. E quando E.T. aceita os docinhos, você finalmente percebe que ele é do bem e não pretende comer o cérebro do moleque. O primeiro ato da amizade, depois dos docinhos, é Elliott mostrando seus bonequinhos de "Star Wars". Estão lá Greedo, Lando Calrissian e Boba Fett, entre outros. Mais um bate-bola de Spielberg com Lucas, duas crianças grandes manipulando a cultura pop nas nossas cabeças. Mais tarde, outras referências aparecem. Michael imita a voz de Yoda ("você tem poder absoluto!") e um moleque fantasiado de Yoda aparece durante o Halloween, causando identificação imediata com E.T. Anos mais tarde, George Lucas retribuiria a gentileza acrescentando toda uma família de ETs no debate político que acontece em "A Ameaça Fantasma". Eu não sei quanto a você, mas eu adoro essas coisinhas nerds. Elliott é tão nerd que xinga um amigo de "zero carisma". Zero carisma é a nota dos efeitos digitais da edição 2002 de "E.T.".

As demonstrações de extrema sensibilidade de Spielberg transbordam ao longo do filme. Na cena mais tocante, Mary lê "Peter Pan" para Gertie, enquanto Elliott e E.T. escutam a história escondidos no armário. É quando Elliott corta o dedo e E.T. o cura usando seu próprio dedo iluminado. E.T. é a fada vinda do espaço, Spielberg é o garoto que não quer crescer, e todos os garotos vão sair voando até o final do filme. Você acredita em fadas? Você acredita em ETs? Como sempre se reflete nos seus filmes, especialmente nos fantásticos, Steven Spielberg teve uma infância solitária e queria, mais do que ninguém, ter um amigo vindo do espaço sideral pra lhe fazer companhia.

Logo E.T. e Elliott (até os nomes são parecidos) estão emocionalmente conectados. Primeiro, quando E.T. se assusta com um guarda-chuvas e faz Elliott derrubar a comida da geladeira. A conexão emocional entre ambos rende os momentos mais divertidos e bonitos do filme - principalmente na genial sequência das rãs dissecadas, quando Elliott, embriagado por uma cerveja que E.T. bebeu, reproduz cenas de um filme antigo e beija a menina mais bonita da escola (Erika Eleniak, que mais tarde também seria playmate e atriz do "Baywatch"). A conexão é o grande tema de "E.T.". Conexão entre amigos. Conexão com o lar. Em "Poltergeist", produzido por Spielberg, a garotinha levada para outra dimensão se comunicava com a família através da televisão. Em "E.T.", o simpático alienígena aprende com a TV a usar o telefone para ligar para casa. ET phone home. Conexão entre pais e filhos. A mãe, perturbada com o divórcio, não ouve os filhos, não vê o E.T. debaixo de seu nariz. Por isso as crianças não contam nada a ela, porque ela é adulta, porque adultos não entendem, porque adultos não têm tempo. A mãe ainda mostra seu rosto, mas só porque é mãe. Professores, policiais e cientistas permanecem nas sombras ou com o enquadramento em suas cinturas. Estabelecidas as conexões, porém, surge o medo de perdê-las. Assim que as crianças descobrem que E.T. veio do espaço, através de seu malabarismo com os planetinhas e a ressurreição das flores, a trilha sonora muda de tom e surge o medo, porque é certo que alguém virá buscar o novo amigo mais cedo ou mais tarde.

O último lampejo de alegria antes da queda na trama é um daqueles momentos mágicos da arte cinematográfica, só comparado à cena do chuveiro de "Psicose", ao final de "Casablanca" e a mais três ou quatro momentos que definem o que é o cinema: a cena do vôo da bicicleta na lua cheia. Virou até logo da produtora de Spielberg, a Amblin. A partir dali, é só tristeza. Elliott e E.T. adoecem, cientistas e militares da NASA invadem a casa e transformam tudo numa ficção científica B de invasão alienígena, trocando os papéis: o homem é o vilão. O E.T. é o mocinho. Até "Guerra dos Mundos", os extraterrestres de Spielberg sempre seriam do bem. As luzes que inundam a casa e o trenzinho que funciona sozinho sem explicação trazem "Contatos Imediatos" de volta, só que com os homens buscando o alienígena. Com 1h23 de filme, finalmente o homem das chaves mostra a cara (Peter Coyote), assume uma postura paternal com relação a Elliott e confessa que desde os dez anos de idade queria encontrar um ET. Ele tem inveja de Elliott. Elliott é a criança que Spielberg gostaria de ter sido, o homem da chave é o adulto que Spielberg se tornou. Mas quando o mundo adulto assume o controle, é para dar uma cara de autópsia alienígena ao filme. Malditos adultos. É quando E.T. entrega suas forças para salvar a vida de Elliott, e se você não chorou neste momento, você é uma pedra de gelo adulta e sem sentimentos. Se mate.

O que salva E.T. e lhe dá forças para voltar à vida? A possibilidade de voltar pra casa. A conexão com o lar. Seus amigos entram em contato, seu coração brilha e as flores renascem. Após uma boa sequência de fuga a la Indiana Jones, E.T. ressurge renascido perante os garotos incrédulos, com um manto branco e o coração aceso, fazendo pose messiânica. A polícia os persegue, e aqui entra a única alteração digital que faz sentido: as armas dos policiais foram trocadas por walkie-talkies. Realmente não há muito motivo pra perseguir crianças de bicicleta com armas, a menos que você more no Rio de Janeiro. Faz sentido, mas não precisava. O vôo da turma em suas BMX no pôr-do-sol é a realização do sonho supremo da infância. O antes desacreditado Elliott agora faz parte da turma. E.T. também está voltando pra sua turma, a nave está esperando na mata. Temos a comovente cena da despedida, aquela pá de cal pra acabar com o resto de lenços que você ainda tem. "Seja boa", E.T. diz pra Gertie. "Eu estarei bem aqui", ele diz com o dedo na testa de Elliott, dando o recado de que jamais vai sair da memória dele e de todas as crianças que estão assistindo. Ele tinha razão. Ninguém esquece o E.T.

Com exceção dos novos efeitos destoantes, a revisão de "E.T." não decepciona entre outros motivos pela qualidade estética e pela direção de arte atemporal. O que significa que ele não tem cara de anos 80, como muitos outros exemplares da década. Um filme que marcou época, que estabeleceu uma série de ícones eternos e espantosamente nunca teve uma sequência. Entre os produtos relacionados, indico a sensacional paródia do Robot Chicken que mostra o nosso querido personagem voltando pra casa e revelando-se um moleque "mentalmente limitado", incapaz de pronunciar muitas palavras e que só acende um dedo, enquanto os colegas acendem todos. Do lado do reconhecimento, recentemente o cineasta Richard Attenborough (o milionário de "Jurassic Park") disse que "E.T." é muito melhor do que o seu "Gandhi", filme que ganhou todos os Oscars importantes daquele ano e deixou Spielberg chupando o dedo na cerimônia, cheio de troféus técnicos. Desnecessário mencionar mais uma trilha sonora antológica de John Williams, que estava naquela fase de criar uma obra-prima por ano desde "Tubarão", de 1975. O que seria daquele vôo na lua cheia sem sua música?

"E.T." foi o filme que me fez gostar de cinema, onde tudo começou pra mim. Quem sabe se tivesse sido outro, eu nem estaria aqui hoje escrevendo neste espaço. Obrigado Stevie, por me permitir começar com o pé direito, e obrigado a minha família por apostar, mesmo sem querer, que uma sessão de cinema pode ecoar pelo resto de uma vida.

Alta Fidelidade

("High Fidelity", 2000, Dir.: Stephen Frears)



Em 1999, eu havia acabado de terminar um mini-curso de cinema e comecei a escrever um roteiro de curta-metragem com meu amigo Hebert. O nome do projeto era "3 Doses" e, como toda obra de iniciante, era bastante autobiográfica. Falava sobre amizades e desilusões amorosas. Para tentar explicar exatamente o sentido das desilusões do filme, eu escrevi "A Teoria Pedestáltica", um pequeno texto sobre amores não-correspondidos exemplificado com uma porção de músicas. Começava com "Creep" do Radiohead e por aí ia embora. Todas as canções versavam sobre o mesmo tema: colocar uma pessoa no pedestal (daí o título, criado por outra amiga, a Thais). O pessoal gostou bastante daquilo. O curta não passou do primeiro - e fracassado - dia de filmagem, mas eu creio que os atores pegaram o espírito da coisa mais por causa do texto e da fitinha K7 que o acompanhava do que por nossa pouca experiência como diretores de atores. O "3 Doses" tentou virar longa, livro, qualquer outra coisa, mas acabou virando apenas lembrança de uma época boa, depois que cada um dos envolvidos tomou seu rumo. Já a Teoria, um spin-off do roteiro, cresceu, desenvolveu-se, ganhou vida própria e foi parar na internet em 2001, onde permanece até hoje encontrando seguidores mal amados mundo afora.

Todo esse prólogo é apenas para revelar uma frustração: é sempre uma porcaria quando você acha que teve uma boa idéia e logo descobre que ela já foi feita, e de maneira bem melhor, por outra pessoa. Há uns anos atrás eu me senti bastante inteligente tendo a idéia de criar um site para hospedar vídeos de shows, depois de ver um show do Pearl Jam cheio de celulares e câmeras digitais e pensar que era um desperdício todo aquele material não ser armazenado em um único local. Pouco tempo depois o YouTube estourou, e ele era muito mais do que um espaço para vídeos de shows. Deu pra entender? Com a Teoria Pedestáltica foi a mesma coisa, porque logo depois que ela nasceu eu soube da existência do "Alta Fidelidade", um livro do inglês Nick Hornby que estava virando filme com o John Cusack no papel principal e falava basicamente sobre como a música pop pode explicar, influenciar ou ajudar a vida de um sujeito, suas atitudes, seus relacionamentos e, é claro, suas desilusões amorosas.

Assisti ao "Alta Fidelidade" quando ele foi lançado no cinema em 2000 e, desnecessário dizer, a identificação foi imediata. Logo em seguida devorei o livro, comprei a trilha sonora espetacular, assisti à fantástica adaptação para o teatro ("A Vida é Cheia de Som e Fúria", da Sutil Companhia de Teatro, no Teatro do SESI, na Av. Paulista) - e olha que eu nem sou muito de ir ao teatro. "Alta Fidelidade" foi o primeiro DVD que comprei (porque eu queria mesmo que o primeiro fosse algo marcante) e um pôster do filme está na parede da minha sala desde o começo da década, estrategicamente localizado perto dos livros, CDs e DVDs, como Rob Gordon (ou Fleming) gostaria. O pôster é uma beleza, inspirado em Beatles, e faz parte da iconografia esperta do filme, como o LP da abertura, os cartazes lambe-lambe dos créditos finais, a cenografia da loja de discos Championship Vinyl e detalhes dos figurinos, como a jaqueta de couro de Rob, que me incentivou a comprar uma parecida.

A transição do livro para o cinema causou alguma polêmica quando John Cusack resolveu transportar a ação da Inglaterra para os EUA - mais especificamente, Chicago. Ora, como se o local onde se passa a história fosse de alguma importância. Mais tarde eu aprenderia que o público indie, que adora Nick Hornby e adora a Inglaterra, é mesmo cheio de frescuras. Apesar de dirigido pelo competente Stephen Frears, Cusack foi o dono da adaptação. Roteirizou, produziu, escolheu a trilha sonora a dedo e incorporou Rob Fleming com perfeição, apenas trocando o sobrenome pra algo menos britânico: Gordon. Ele escolheu Chicago porque, em Chicago, ele saberia onde um cara que acabou de tomar um pé na bunda sairia para tomar um porre. Há que se louvar essa justificativa. Cusack se tornou mesmo Rob, e se transformou na referência exata de uma geração de homens imaturos, inseguros, carentes e prematuramente nostálgicos que se apegam à uma coleção de discos como se aquilo fosse sua própria personalidade materializada.

O cinema está repleto de comédias românticas feitas para as mulheres. "Alta Fidelidade" é uma comédia romântica para homens. Desculpe-me você mulher que adorou o filme e o livro e conseguiu se identificar com alguma coisa, mas aquilo tudo ali é nosso. Você pode procurar sua turma nos filmes da Bridget Jones ou em "Sex and the City", porque o Rob que chora na chuva, que não se conforma com um pé na bunda injusto, que rola na cama pensando na ex fazendo sexo com outro, que se sente inseguro na cama diante de uma mulher maravilhosa, que fica de bode ouvindo "The River" do Bruce Springsteen no fone de ouvido - esse cara é nosso.

Mas nem só de identificação pessoal e intimismo se faz uma grande obra. "Alta Fidelidade" também causou impacto cultural mundo afora, graças à internet. O termo "cultura pop" passou a ser utilizado com mais frequência para definir toda uma indústria de livros, filmes, músicas e jogos. O próprio termo "pop", que normalmente era usado para definir coisas de gosto duvidoso como Spice Girls e Backstreet Boys passou a ser aplicado em bandas consagradas como o Radiohead e de repente o álbum "Pop" do U2 passou a ser visto com outros olhos, bem menos preconceituosos. Nick Hornby também foi o responsável pelo surgimento da tal literatura pop do novo milênio, que nada mais é do que uma literatura de linguagem jovem e repleta de referências moderninhas - o mundo dos blogueiros. Os top 5 de Rob viraram mania em blogs e comunidades do Orkut (orgulho-me de ter criado a comunidade Top 5, sim senhor). De repente todo mundo que sempre fez rankings de filmes e músicas ficou na moda. Ser nerd virou pop, e ser pop virou cool. Hornby e Cusack estiveram na hora certa e no lugar certo, aproveitando todo o boom pop que a internet proliferou no mundo.

Mas quando eu vi e li "Alta Fidelidade" pela primeira vez, eu tinha vinte e poucos anos. O mundo ainda tinha algumas coisas para me ensinar sobre desilusões amorosas, antes que a identificação pudesse ser plena. Naquela época era apenas o barato da música, da dor, dos rankings e dos corações partidos. Quando você revê o filme na faixa etária de seu protagonista, ou seja, já na casa dos trinta, você percebe que o buraco é mais embaixo. Principalmente porque, quando você tem vinte, você acha que vai chegar aos trinta maduro e calejado, e não é bem por aí.

"O que veio primeiro, a música ou a tristeza? Eu sou triste porque ouço música ou ouço música porque estou triste?" A questão filosófica Hornbyana baseada no biscoito Tostines e na velha pergunta sobre o ovo e a galinha abre o filme, com um John Cusack melancólico, de fone de ouvido, falando com a câmera. Laura (Iben Hjejle) está deixando-o naquele momento. Rob faz um top 5 mulheres que lhe deram um pé na bunda, e deixa Laura de fora, só de birra. Na verdade, ainda é cedo. Como ela acabou de sair, a raiva ainda é maior que a tristeza.

Os flashbacks que explicam os fracassos amorosos de Rob são bem engraçados. Temos Alison Ashmore, a garotinha que o trocou pelo amigo na infância. Penny Hardwick, a adolescente que ainda não estava preparada para o sexo. Sarah Kendrew, a sua parceira de rejeição, tão loser quanto ele, mas que acabou rejeitando-o também. E Charlie Nicholson, designer descolada, antenada, maravilhosa, uma mulher acima de seu nível, intimidante, que nunca o deixou se sentir seguro e confortável. Quando ela o troca por um colega designer musculoso, vemos Rob pela primeira vez chorando na chuva, um adorável clichê de fossa que se repetirá ao longo do filme. Rob nunca superou Charlie, e por ela perdeu a fé, a dignidade e oito quilos. Charlie é a pedestal suprema.

Quando não estamos desvendando o passado de Rob, o alívio cômico fica sob os cuidados de Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black), a inacreditável dupla de funcionários de Rob na loja de discos. O trio é perfeito em seu esnobismo e arrogância, seja enxotando um tiozão careta que só queria comprar "I Just Called To Say I Love You" (da fase ruim do Stevie Wonder nos anos 80), seja criando top 5 dos mais variados temas. Diretor elegante e respeitoso, Stephen Frears entende o que a música significa para aqueles caras, como prova a despretensiosa porém ótima sequência onde o tímido Dick paquera uma moça usando o Green Day como desculpa, enquanto Barry tenta religiosamente salvar a alma de um freguês com Jesus & Mary Chain e Bob Dylan e Rob percebe uma oportunidade mercadológica de vender discos da Beta Band. Destaque para um Jack Black ainda desconhecido querendo roubar o filme, em um papel que ele repetiria à exaustão nos anos seguintes, principalmente em "A Escola do Rock" - quase um filme solo do nosso querido Barry. Já Todd Louiso conquista pela simplicidade do personagem, com sua fala hesitante e olhar deslocado. Na cena em que Rob está reorganizando seus discos em ordem autobiográfica, a expressão de Dick é como se o chefe estivesse construindo um foguete, ou tivesse acabado de descobrir a cura do câncer.

Deixando o humor de lado, temos Iben Hjejle, uma atriz desconhecida que nem é tão boa ou bonita assim e sofre com o papel de "vilã" da história. Entre aspas, você entendeu. É ela que está chutando Rob, então é a vilã. Nós somos identificados como amigos confidentes de Rob, e amigos nem sempre têm a liberdade de julgar o gosto do outro para mulheres. Então aceitamos que Laura merece todo aquele sofrimento, mesmo sem saber direito por quê. Aos poucos vamos compreendendo mais os dois lados da moeda, mas como em todo rompimento que se preze, você tende a ficar do lado do seu amigo, que é quem te conta a versão da história. Os demais clichês de uma separação estão todos lá: a mãe que culpa Rob por não ter pedido a moça em casamento antes; a amiga do casal, Liz (Joan Cusack, irmã de John), que não quer tomar partido, mas que acaba tomando ao ouvir a versão de Laura; explicações bestas como "eu evoluí e você não mudou nada"; as traumáticas devoluções de objetos pessoais; e por aí vai. Todos os traumas de separação são abrilhantados por diálogos sempre geniais saídos das páginas de Nick Hornby, como a análise das calcinhas do dia-a-dia, reflexões como "só pessoas de certa índole têm medo de ficar sozinhas pelo resto da vida aos 26 anos", ou a curta porém simbólica cena onde uma cliente da loja pergunta "você tem soul?" e um miserável Rob responde "ali no fundo, perto do blues".

Em determinado momento, Liz deixa escapar que Laura está morando com um tal de Ian. Rob descobre que Ian era o zen vegetariano fã de world music que morava no andar de cima e fazia sexo por horas. Tim Robbins aparece perfeito com seu rabo-de-cavalo de Steven Seagal e você quase é capaz de sentir o seu cheiro de patchouli. A notícia é suficiente para tirar seu sono. Ele fica imaginando Laura e Ian transando loucamente ao som de Barry White. É quando Laura entra no top 5 com honras e nós começamos a compreender porque ela era tão adorável. Um flashback mostra como eles se conheceram: Rob era DJ e gravou uma fita para ela. Ajuda muito uma declaração de amor sincera como esta: "Ela não me deixava triste, ansioso, nem desconfortável. Pode parecer uma chatice, mas não era”. O top 5 coisas que Rob sente falta nela reforça o sentimento, e vem na forma de um monólogo comovente de Cusack diante da câmera. Mais uma declaração simples e sincera, daquelas que não vemos no cinema todo dia. Não é sentimental e bobo, é simplesmente um homem explicando porque ama uma mulher. Laura também se mostra legal quando analisa o top 5 empregos ideais de Rob, e o convence de que ter uma loja de discos merece uma posição. O filme faz você acompanhar gradualmente o sentimento de Rob pós-rompimento, passando da raiva para a tristeza e para a saudade e para a constatação de que o amor ainda existe.

Quando Rob decide ir atrás das top 5 e perguntar a cada uma delas o que ele fez de errado, o filme recebe uma visita especial: Bruce Springsteen aparece no quarto de Rob como uma entidade conselheira, apoiando sua atitude. Rob agradece, "thanks, Boss". Quem já ouviu uma música e a compreendeu como um conselho de pé do ouvido vindo direto do artista sabe bem o que essa cena representa. Ela não está no livro, e é a maior contribuição do roteiro à adaptação cinematográfica, já que materializa toda a conexão entre artista e ouvinte, sem precisar explicar nada. Para mim, ver Bruce Springsteen numa história de Nick Hornby tem sabor especial: fui me interessar pela obra do Chefe depois de ler "31 Canções" de Hornby, no qual "Thunder Road" tem imenso destaque. E o mesmo "31 Canções" inspirou a criação deste "31 Filmes", o que fecha todo um círculo de referências. Em tempo: descobri que é ótimo ter Bruce Springsteen como amigo conselheiro. O Chefe realmente sabe das coisas.

Em sua busca pelas top 5 do passado, Rob descobre que Alison se casou com o moleque que beijou na escola; que Penny se sente rejeitada até hoje; que Sarah tornou-se uma perdedora desempregada e com problemas médicos, comparada à Adrian do Rocky; e que Charlie, ao contrário do que ele imaginava, é uma mulher idiota, superficial e insuportável. Aquele tipo de constatação que você só percebe à distância, depois que a sujeita já desceu do pedestal. Com os fantasmas do passado exorcizados, Rob está livre para resolver seu presente. Ou seja, Laura. Os diálogos de Rob e Laura discutindo a relação que já acabou são tão reais que chegam a doer. Em determinado momento, ele só quer saber se ela já transou com Ian. Quando ela responde que não transaram AINDA, mas que dormir junto é melhor, ele ignora a segunda sentença (realmente secundária para nós, homens) e vai comemorar transando com a cantora Marie De Salle (Lisa Bonet). Marie representa o fetiche pop, a fantasia de se transar com uma popstar, o que fica bem claro quando o trio Rob, Barry & Dick se encanta com a moça e começa a sonhar em ter seu nome no encarte de um CD dela. Entendo bem a importância disso. Não posso descrever minha felicidade quando tive meu nome impresso nos agradecimentos de um EP do Ludov, ou quando a banda me convidou para fazer figuração no clipe de "Estrelas". Foram os momentos "Alta Fidelidade" máximos na vida de um pacato fã de música que não sabe tocar nada e jamais vai ser capaz de gravar um disco. Mais adiante Laura vai fazer o mesmo por Rob: vai fazer ele deixar de ser um consumidor passivo para se tornar parte daquele mundo. Uma prova de amor e tanto.

Rob está longe de ser perfeito, e são nos seus defeitos que nós, homens, nos identificamos. Cínico, ele usa sua melancolia oportuna para seduzir Marie. Assim que se despede de Marie e a fantasia pop vai embora rua acima, o AINDA de Laura volta para atormentar Rob. A insegurança o faz agir de forma infantil, correndo atrás dela, marcando outro encontro só para ouvir que, dessa vez, ela já transou com Ian. E veja, ele transou com Marie, mas não consegue aceitar que Laura tenha transado com Ian. Não é machismo, é ciúme mesmo. É o fora definitivo. É quando a ficha cai de verdade, a tristeza finalmente supera a raiva e Rob toma chuva novamente, dessa vez ao som de "Oh! Sweet Nuthin'" do Velvet Underground. E ainda tem que aguentar a ida de Ian à loja, na cena mais hilária do filme. A breve cena em que Rob observa Dick e sua namoradinha, Anaugh Moss, a fã de Green Day, enquanto apaga as luzes da loja é emblemática. Se até Dick se ajeitou e você está sozinho, é porque você está com problemas.

O ponto de virada que muda o rumo do filme na sua parte final é a morte do pai de Laura. No velório, sentindo a cobrança ao seu redor, Rob entra na fila para dizer "eu sinto muito" a ela. Rob sai na chuva mais uma vez, desta vez ao som de "Most of the Time" do Bob Dylan, numa das mais belas cenas de fossa da história do cinema. Pense em todas as comédias românticas que apelam para baladinhas de Snow Patrol e Coldplay para emocionar no tradicional clipezinho de fossa, e você vai ver que "Alta Fidelidade" está muitos níveis acima. Sofrer na chuva com Bob Dylan é sofrer com dignidade. Sozinho debaixo d'água, ele assume seus erros, sua falta de comprometimento com Laura, sua covardia. Ela vai atrás dele, eles transam no carro e reatam o namoro. Tudo muito simples, sem grandes arrombos românticos. Ela diz "estou cansada demais pra não ficar com você" e de repente todo o sofrimento anterior se transforma em tempestade em copo d'água como, no geral, é mesmo. Mais uma vez, prevalece a elegância de Frears na cena e a sobriedade do roteiro.

Um último desafio para Rob Gordon surge na figura da jornalista indie Caroline (Natasha Gregson Wagner), mais um fetiche pop em sua vida, trazida ao som de Stereolab para a loja de discos. É essa fantasia final que leva Rob ao clímax do filme, num singelo bar onde ele pede Laura em casamento, enquanto toma sua cerveja long neck com limão. Sua explicação sobre as fantasias que não se realizam e sobre a realidade das calcinhas de algodão cria o meu pedido de casamento preferido do cinema, empatado com Johnny Cash e June Carter no palco, no final de "Johnny & June". Laura diz "você achou que eu fosse aceitar?", Rob responde "Não sei, eu achei que o importante era pedir" e ela conclui com um "Obrigada". Lindo, lindo. A cena final na festa de lançamento do selo Top 5, com Rob de DJ ("dance music for old people"), o lançamento do CD dos skatistas Kinky Wizards e a performance sensacional de Barry Jive and the Uptown Five mandando ver "Let's Get It On" é apenas um epílogo divertido, arrematado por Rob gravando a fita definitiva para Laura ao som de "I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)" de Stevie Wonder (essa, da fase boa). Porque agora ele sabe como fazer uma fita que deixe Laura feliz. E aí eu choro mesmo e penso em todas as fitas que já gravei e nos meus top foras e em tudo que já passei desde que vi esse filme pela primeira vez. Ele continua me ensinando coisas novas a cada revisão, e parece até fazer mais sentido agora, que cheguei nos 30 não muito diferente do que era aos 23. Um dia a gente chega lá, e aprende a gravar a fita certa para a pessoa certa. Acho que a moral da história é essa aí.

Os Intocáveis

("The Untouchables", 1987, Dir.: Brian DePalma)



Minha concepção de perfeição no cinema não está necessariamente relacionada ao valor artístico, técnico ou histórico do filme. Ao meu ver, um filme perfeito é aquele que tem uma série de sequências antológicas, memoráveis, clássicas, daquelas irresistíveis que fazem você parar ao zapear pelos canais da TV. Sempre que penso nisso, o primeiro exemplo que me vem à cabeça é "Os Intocáveis". Tem a cena da escadaria, tem a cena do tribunal, tem a cena da ponte canadense, tem a cena do assassinato de Malone, enfim... escolha sua favorita. São muitas cenas grandiosas, uma atrás da outra. Nada ali é descartável, nenhum momento poderia ser melhorado. Começo, meio e fim com a mais apurada técnica cinematográfica.

A perfeição em "Os Intocáveis" começa já na abertura, quando a trilha de Ennio Morricone estoura na tela feito uma saraivada de balas. Nos créditos você vê uma verdadeira seleção de profissionais da indústria, do diretor Brian DePalma ao roteirista David Mamet, passando pelo próprio Morricone até as roupas desenhadas por Giorgio Armani, o que até soa como ostentação. Vários heróis particulares desfilam aqui: Kevin Costner em início de carreira, ele que seria um dos maiores atros do cinema até a metade da década de 90, capaz de rivalizar com Harrison Ford, Tom Cruise e Arnold Schwarzenegger em filmes como "Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões" (a consagração como herói de blockbuster) e "Dança Com Lobos" (a consagração como cineasta respeitável); Sean Connery, o eterno James Bond, roubando o filme para si e ganhando seu merecido Oscar de coadjuvante; Robert DeNiro, o homem que já havia interpretado o Don Corleone jovem em "O Poderoso Chefão - Parte II", engordando para dar vida a outro chefão, desta vez um que existiu de verdade, o maior de todos, Al Capone - e no mesmo ano ele literalmente fez o diabo em "Coração Satânico"; DePalma, o maior seguidor de Hitchcock, usando seu talento em homenagear mitos para recontar uma série de TV (algo que ele faria novamente anos depois no excelente e subestimado "Missão: Impossível"); e finalmente Ennio Morricone, o maior maestro do cinema, o homem que me faz acreditar que Deus existe através da música.

Vi "Os Intocáveis" pela primeira vez em vídeo (VHS da extinta CIC Vídeo), ali pelo final dos anos 80. 1987 foi um ano de bons e violentos policiais como "Máquina Mortífera", "Robocop" e o próprio "Os Intocáveis", todos não tão fortes assim se revistos hoje. "Os Intocáveis" ganhava pontos por ser levemente baseado em fatos verídicos (sua inspiração era mais a série de TV mesmo), e por mostrar um herói menos cínico e mais humano, com um caráter indiscutível, de moral rígida, idealista, ou seja, um herói das antigas. Não à toa, compararam Kevin Costner a astros como Cary Grant e James Stewart. Eliot Ness (Costner) era o agente do tesouro incorruptível, destinado a capturar o maior gângster vivo, Al Capone (DeNiro), uma missão suicida. Obviamente o filme é maniqueísta até a medula, como não poderia deixar de ser. Ness é o ícone do bem e Capone é a personificação do mal. Mas o que Ness aprende em sua jornada de herói é que, para se vencer o demônio, você deve jogar de acordo com as regras dele.

O letreiro inicial avisa: "Chicago, 1930, essa é a época dos poderosos chefões. Essa é a época de Al Capone". Vemos o vilão deitado com um pano no rosto e ele parece morto, mas na verdade está fazendo as unhas e a barba enquanto dá entrevistas. O poder da mídia é destaque no filme todo, e logo percebemos que os jornalistas estão mais pro lado da máfia do que pro lado da lei. Ali que está a diversão, a graça, o dinheiro, o poder, e você sabe, as pessoas más se divertem muito mais. A cena inicial de apresentação de Capone logo dá espaço para a cena da menininha no bar, que vai pelos ares. É a primeira aparição do capanga de terno branco, interpretado por Billy Drago, figurinha carimbada em filmes B de pancadaria e um sujeito odiável por si só. Mas a lição está clara: Capone é um bandido cruel que não poupa nem criancinhas fofas. Do bar em chamas vamos para a casa de Eliot Ness, onde sua prendada esposa (Patricia Clarkson) prepara seu lanche e um bilhete carinhoso para o marido. Ness está de costas, calado, lendo a manchete no jornal sobre a menina que morreu na cena anterior. Não vemos sua cara, mas sabemos que aquilo o machucou, porque Ness é um homem de família e um cidadão de bem. Foram apenas três rápidas cenas e em menos de 10 minutos o filme já apresentou seus antagonistas com perfeição. Capone contra Ness, Ness contra Capone, e a população indefesa no meio do tiroteio.

Quando vemos o rosto de Eliot Ness pela primeira vez, ele já está no departamento de polícia, sendo apresentado à imprensa como o paladino que vai defender a Lei Seca e acabar com a máfia em Chicago. Sua primeira noite de ação acaba em fiasco quando ele encontra apenas sombrinhas no que deveria ser um carregamento de whisky canadense. A imprensa está lá para registrar o seu fracasso. Voltando pra casa cabisbaixo, Ness conhece Jim Malone (Sean Connery), um simples guarda de rua que o repreende por jogar papel na rua. Mais do que isso, Ness conhece alguém mais caxias do que ele mesmo. Malone é o mestre jedi, o professor que vai transformar Ness de um novato promissor e ingênuo em um policial de verdade, capaz de peitar o crime organizado e ser temido por ele.

O bem e o mal alternam forças ao longo de "Os Intocáveis". Quando um lado está feliz, o outro evidentemente está triste. Então Capone acorda feliz em seu luxuoso hotel enquanto Ness é motivo de piada na corporação. Vale notar que, para cada fase (bem feliz, bem triste, mal feliz, mal bravo), Morricone tem um tema específico de arrepiar a espinha. Mas como os personagens não ouvem a trilha, o personagem Ness precisa de um incentivo pra seguir em frente, e ele surge na forma da mãe da garotinha que morreu lá no começo do filme. Pela primeira vez conhecemos o endereço da Rua Racine, 1634, onde mora Malone. Ness pede ajuda a ele. Malone é um bom policial em uma cidade ruim. É o policial renegado que tem vergonha dos seus colegas corruptos. Mas a princípio Malone prefere continuar vivo. Quando finalmente aceita o desafio, ele está com Ness em uma igreja. Ambos ajoelhados com terços nas mãos, porque o único modo de encarar uma missão dessas é na base da fé. A primeira lição de Malone é não confiar em ninguém. Por isso o recrutamento começa na Academia, onde o recruta George Stone (na verdade um italiano disfarçado, interpretado por um Andy Garcia novato) ganha a confiança do irlandês Malone. O quarto intocável é Oscar Wallace (Charles Martin Smith), um contador que cai sem querer no bando e serve como contraponto cômico à seriedade dos demais. Wallace é mais cerebral e será importante na estratégia de capturar Capone a qualquer custo, mesmo que seja por sonegação fiscal.

Na "cena da primeira batida que dá certo", o tema dos Intocáveis toca pela primeira vez, ainda que não completo. É a trilha máxima do "bem feliz", uma composição majestosa e grandiloqüente de Morricone, capaz de elevar a moral de um exército inteiro. Se eu tivesse um país, contratava Morricone pra compor o hino. O contraste do bem feliz com o mal bravo vem na "cena de Capone com o taco de baseball", quando ele executa um traidor durante o jantar. Novo contraste: Ness coloca a filha pra dormir, com direito ao "beijo do esquimó". Alternar sequências de puro ódio com outras de extrema ternura é um jogo sujo de DePalma, porque é óbvio que a violência de um lado em breve vai respingar na família feliz de comercial de margarina do outro lado. E isso se chama suspense psicológico. O que antes era apenas sugerido torna-se concreto quando, após enxotar um vereador corrupto de seu gabinete, Ness recebe a visita do capanga de terno branco em sua própria casa. O bandido usa uma frase de Ness para impor o medo: "é bom ter uma família" e nesse momento Eliot Ness começa a achar que não é tão intocável assim. A frase, do jeito que é dita, me lembra demais a frase do policial Gaff para Rick Deckard em "Blade Runner": "é uma pena que ela não vá viver, mas afinal, quem vive?". A mesma entonação, o mesmo significado oculto de que a vida não é tão bela quanto nós às vezes imaginamos.

Com a família despachada para longe, Ness fica livre para a ação. A "cena da batida na ponte canadense" é um primor que dura 14 minutos e tem de tudo: ação, suspense, aventura, comédia, drama. Para unir tudo isso, DePalma usa elementos clássicos do western e neste ponto a trilha de Morricone não poderia ser mais perfeita. O tema dos Intocáveis surge em toda sua plenitude durante o tiroteio na ponte envolvendo gângsters, os Intocáveis e a polícia montada canadense. Cavalgadas heróicas são sempre emocionantes. Mas a aventura dá lugar ao suspense quando a ação se desloca para a cabana, onde Malone usa meios pouco ortodoxos para tirar informação do contador de Capone. Hoje, pós-Capitão Nascimento, a cena não impressiona tanto. Mas na época foi necessário uma justificativa. Então o policial canadense diz: "eu não aprovo seus métodos" e Ness responde: "você não é de Chicago!". Ou seja, o bom moço Eliot Ness começa a vislumbrar o lado negro da força. Na sequência, mais um contraste: Capone aparece enfurecido, enquanto Ness conhece seu novo filho recém-nascido.

Chegamos a 1 hora de filme e os mocinhos já comemoraram demais, daqui pra frente as coisas começam a dar errado e é só ladeira abaixo. O capanga de terno branco mata Wallace e o contador no elevador e, logo depois de arrancar informações importantes do chefe de polícia corrupto, Malone é brutalmente assassinado numa das cenas mais angustiantes do cinema. Em toda essa fase mais pesada do filme, DePalma cria planos-sequência memoráveis e, na morte de Malone, coloca a câmera em primeira pessoa, sob o ponto de vista do assassino que nos leva de volta à Rua Racine, 1634. No meio disso tudo, ainda temos o primeiro confronto cara-a-cara de Ness com Capone, quando o primeiro quebra o nariz de um capanga do segundo. A cena marca o final dos contrastes entre felicidade x tristeza do bem x mal, e começa a guerra. A sequência de suspense quase insuportável termina com Capone na ópera, recebendo a notícia da morte de Malone ao som de "Ridi, Pagliaccio". DeNiro alterna lágrimas e risos em uma interpretação que poucos atores conseguiriam entregar, enquanto Sean Connery rasteja ensangüentado no chão de sua casa. Mas Ness e Stone ainda estão vivos e têm a informação da chegada do contador-chefe à estação de trem, o que nos leva à clássica "cena da escadaria".

Todos sabemos que a cena da escadaria de "Os Intocáveis" é a homenagem de DePalma a um marco do cinema, "O Encouraçado Potemkin". Pergunte a qualquer estudioso de cinema e ele vai te explicar que o filme do russo Sergei Eisenstein inventou todas as regras de edição (cortes, ritmo, divisão do tempo em frações). Importância histórica a parte, convenhamos que o filme, visto hoje, é chato que dói. Daí que a cena de "Os Intocáveis" vai além da mera citação, ele pega aqueles elementos clássicos e mostra como usá-los no cinemão recente. É como se DePalma agradecesse Eisenstein e dissesse "agora olha o que eu sou capaz de fazer com o que você inventou". DePalma expande a aula de cinema, mostrando na prática o que "Potemkin" determinou lá em 1925. A cena toda é genial. Temos lá Eliot Ness, George Stone, gângsters armados até os dentes, um contador que não pode morrer, pessoas passando pelo local e uma mãe que só quer subir a escadaria com seu bebê no carrinho. Poderia ser a mesma mãe que perdeu a filha no começo do filme, na cabeça de Ness. O bom policial não resiste e vai ajudá-la, com o carrinho numa mão e a arma na outra. É quando o capanga do nariz quebrado o reconhece e começa o tiroteio. Em câmera lenta, com enquadramentos precisos, edição fabulosa e a trilha de Morricone misturada a brinquedos de criança, a cena toda tem que ser vista, revista e decupada. O carrinho desce, a mãe grita sem som. Marinheiros aparecem para levar chumbo, compondo uma referência ainda mais explícita ao "Encouraçado Potemkin". A situação beira o caos completo quando Stone aparece para salvar o dia, o bebê, entregar uma arma carregada para Ness e ainda manter o último vilão vivo na mira. Ufa. E pensar que isso ainda não é o clímax do filme.

Al Capone vai a julgamento mas está tranqüilo com os jurados todos no bolso. Preocupado, Ness retira o capanga do terno branco do recinto, ele está armado e tem o endereço de Malone (Rua Racine, 1634, lembre-se) anotado numa caixa de fósforos. Tem início a "cena da cobertura do tribunal". Depois de brincar de western, de suspense, de "Encouraçado Potemkin" e de tantos outros estilos ao longo do filme, DePalma prefere filmar a última perseguição de maneira elegante, como um bom policial clássico. É quando Eliot Ness finalmente perde o que restava de sua ingenuidade e aprende a jogar sujo. Quando ele aponta a arma contra o inimigo desarmado, DePalma coloca a câmera em close nos seus olhos, enquanto a trilha de Morricone faz a vez da sua consciência. E quando ele empurra o vilão de cima do prédio, a vingança e o sentimento de justiça com as próprias mãos já tomou conta. Ele não é mais o policial bonzinho, o homem de família honesto e justo, porque ele amadureceu, perdeu amigos e ganhou cicatrizes no processo. Por isso é um enorme alívio ver o sujeito se estatelar lá embaixo. Alívio maior do que a condenação de Capone a míseros 11 anos atrás das grades. Você não aprova esse método? É porque você não é de Chicago!

E Ness ensina a Capone: "nunca pare de lutar até o combate acabar". O último diálogo do filme deixa claro que Eliot Ness já não é mais o mesmo. Ou pelo menos ele aprendeu a ser irônico. Quando o repórter pergunta o que ele vai fazer se acabarem com a Lei Seca, ele diz: "Acho que vou tomar uma bebida". Na verdade Eliot Ness é um homem do lado da lei, seja ela qual for. A câmera sobe ao som do tema de Morricone e Ness vai pra casa dormir o sono dos justos, com a sensação de dever cumprido.

Além do meu conceito das grandes cenas enfileiradas, "Os Intocáveis" tem todos os elementos que um grande filme deve ter, seja na parte técnica, seja nas lições e valores que fazem da gente pessoas melhores ao terminar a projeção. No mínimo, a música de Morricone sempre eleva seu espírito para outros patamares. Apesar de baseado na história real de Eliot Ness contra Al Capone e na série de TV oriunda dessa história, o filme mantém uma aura romântica e esperançosa que só existe nos grandes clássicos do cinema. É presença garantida nas minhas listinhas de 10 preferidos, às vezes até no top 5. Faz uns 20 anos que revejo esse filme e ainda me emociono com a cavalgada no Canadá, sofro com a morte de Malone, passo mal na escadaria da estação de trem e torço pra Eliot Ness empurrar logo o capanga de cima do prédio antes mesmo de sua provocação final. E Brian DePalma segue como um dos únicos cineastas capazes de me fazer chorar com um movimento de câmera. Fim da lição.

Top Gun - Ases Indomáveis

("Top Gun", 1986, Dir.: Tony Scott)



Quando você diz que ouve Bob Dylan e Radiohead e seus filmes preferidos são "Era uma vez no Oeste" e "Um corpo que cai", você adquire uma certa reputação. As pessoas confiam em você, no seu julgamento, no seu gosto, na sua opinião sobre as coisas. Quando na sequência você diz que Bon Jovi e "Top Gun" estão no mesmo nível de preferência dentro do seu coração, sua reputação se torna decepção. As pessoas olham pra você com um misto de incompreensão e pena, como se você tivesse uma doença terminal, ou como se você largasse a faculdade de direito no último ano pra abrir um boteco na praia. Eu sei, eu convivo com esse olhar de reprovação a vida toda. Já me acostumei com ele. Na verdade eu já espero esse olhar das pessoas. O gosto para filmes e músicas é algo bastante particular e não cabe a mim explicar como isso funciona dentro da cabeça do ser humano. Algumas coisas simplesmente batem de um jeito diferente em cada um. A época, o contexto, o que você comeu no almoço, tudo interfere e influencia na forma como aquilo vai se consolidar (ou não) na sua vida dali pra frente. Pensando assim, questões como qualidade artística ou opinião crítica são completamente irrelevantes. E pensando assim, desconfie de quem diz que seu filme preferido é "Cidadão Kane" e sua banda preferida é Beatles. Você tem que ir além do que foi predeterminado pra você gostar nessa vida. Essa é a graça da coisa toda.

Por outro lado, quando não há o olhar de decepção, há o olhar de identificação. Ele é mais raro, e por isso muito mais valioso. Ele conecta pessoas. Tanto Bon Jovi quanto "Top Gun" me renderam mais amigos e bate-papos animados do que qualquer outra coisa. E embora ambos sejam definidos por aí como "coisa de menina" (ou de bicha, para os machões desse mundo), poucos assuntos me renderam tanto papo com meninas bonitas e interessantes do que esses dois. Mulheres adoram "Top Gun", sempre adoraram. Tive certeza disso pela primeira vez quando fui comprar o LP da trilha sonora. Era meu presente de aniversário, meus pais estavam junto, devia ser o Carrefour de Campinas, lá pela virada entre os anos 80 e 90. A moça do caixa abriu um sorriso enorme quando eu entreguei o disco pra ela. "Ai, posso ouvir também?" ela disse com um brilho nos olhos. E completou "Adoro esse filme e essa trilha". A moça era bonita e eu fiquei feliz. Todo moleque se 13 ou 14 anos se encanta com moças esbeltas que brilham os olhos assim. Como não adorar "Top Gun" afinal?

"Ases Indomáveis", uma tradução brasileira famosa na época, mas que vem se perdendo com o tempo, passou na Tela Quente e foi ali que eu vi pela primeira vez. A dublagem daquela versão é antológica, foi a que eu gravei na minha surrada fitinha VHS. Os diálogos que decorei são daquela versão, nada das novas dublagens de DVD ou dos diálogos originais. "Eu tenho necessidade, necessidade de voar!" é muito mais legal do que "necessidade de velocidade" ou "need for speed". Naquela época eu colecionava fotos de filmes de jornais e revistas, então tinha um vasto acervo de fotos diversas, incluindo muitos Tom Cruises fazendo pose pro filme. E, graças ao Tom Cruise, a minha paixão platônica da época foi até minha casa trocar foto, veja só. Mais um ponto pra "Top Gun". Aproximações como esta proporcionadas pelo filme aconteceriam muitas vezes mais ao longo da vida, não só com mulheres, mas também com homens que se tornaram grandes amigos e com os quais, sempre que posso, canto "You've lost that loving feeling". De preferência depois de algumas cervejas.

Mas "Top Gun" não é só Tom Cruise e boas músicas. "Top Gun" é o filme de avião definitivo. O F-14 é uma das máquinas mais bacanas já criada pelo homem, é o Mustang dos caças, classudo, imponente, e é capturado de forma quase erótica pelas câmeras de Tony Scott. Eu tive um grande pôster de um F-14 na parede do meu quarto durante toda a infância e a adolescência. Cinematograficamente, até hoje, nada conseguiu superar as fantásticas tomadas aéreas da equipe de Tony Scott (Art Scholl, famoso cinegrafista de aviões, morreu durante as filmagens e o filme é dedicado a ele). O diretor que veio da publicidade caprichou na parte técnica e na estética de videoclipe, com aquele fotografia de eterno pôr-do-sol que se tornaria assinatura dos filmes produzidos pelo Jerry Bruckheimer. Com visual de cair o queixo e som perfeito, "Top Gun" era o filme preferido das lojas que vendiam as primeiras TVs e videos estéreo. Até hoje o som dos jatos misturado com o tema "Top Gun Anthem" impressiona. As lojas de hoje deviam demonstrar seus LCDs e home theaters assim.

Logo na sequência entra "Danger Zone" com o onipresente (na época) Kenny Loggins, enquanto os F-14 decolam do porta-aviões. Se você é moleque, o filme já te ganhou ali, nem precisava mais nada. Stinger (James Tolken, o diretor da escola de "De volta para o futuro") aparece e deixa claro que a dupla de pilotos Maverick & Goose é um problema. E só então surge o jovem Tom Cruise como Maverick, o moleque travesso, o piloto rebelde e genial que não segue as regras, o papel que consagrou o "padrão Tom Cruise" de personagem atrevido e inconseqüente que aprende uma valiosa lição. Em breve ele iria desbancar Harrison Ford no posto de maior astro do cinema, e todos aqueles trejeitos e expressões que beiram a canastrice em "Top Gun" se tornariam suas marcas registradas. Já Anthony Edwards, o eterno Goose, o carismático parceiro cômico, só foi reencontrar o sucesso na série "Plantão Médico", muito tempo depois. E o filme ainda lançou as carreiras de gente como Val Kilmer, Tim Robbins e Meg Ryan.

As duplas Maverick & Goose e Cougar & Merlin estão se divertindo no Oceano Índico e nós nunca chegamos a entender o que exatamente eles estão fazendo ali. Só sabemos que o MIG 28 é o caça russo, e como estamos em 1986, no meio da Guerra Fria, deduzimos que eles são os vilões. A Guerra Fria tinha muita espionagem e paranóia, mas no final das contas era um negócio bastante sem graça. A prova disso é que poucos pilotos entram em contato com o caça inimigo, e Maverick & Goose se tornam celebridades graças a um mergulho invertido com um MIG 28. No mesmo exercício, o melhor piloto da turma, Cougar, tem um ataque de pânico e resolve abandonar o cargo, deixando a vaga da academia (a Top Gun propriamente dita) para os renegados, os desleixados, os ousados, os underdogs, os outcasts Maverick & Goose. Antes de liberar a dupla, Stinger solta uma das grande frases de efeito do filme: "seu ego está emitindo cheques que não pode pagar", o que resume bem o caráter de Maverick.

Já em Miramar, na Califórnia, Maverick & Goose entram em contato com a concorrência e com seus novos superiores (Michael Ironside, como Jester, e Tom Skerritt como Viper, o melhor piloto vivo, a lenda, o mestre Yoda dos pilotos). Na apresentação da turma, um dos alunos confessa que está tendo uma ereção durante a aula de combate aéreo. Uma demonstração de virilidade ou um exemplo do conteúdo homoerótico tão evidente no filme? Particularmente, acredito que na escala de virilidade os pilotos de caças só perdem para os astronautas. Você não pode ser uma flor delicada e sensível pilotando aquelas máquinas milionárias em alturas inacreditáveis com velocidades desumanas. Por isso é um toque de gênio de Tony Scott aproveitar esse
excesso de testosterona para criar um ambiente quase gay, baseando o visual em calendários de moda de masculinidade extremamente duvidosa. Por isso, em diálogos como esse ou na famosa cena do vôlei de praia, a viadagem come solta. Quentin Tarantino, fã confesso de Tony Scott e de "Top Gun", tem aquele célebre monólogo no filme "Vem Dormir Comigo", onde narra sua tese de que "Top Gun" é um filme gay. Apesar de alguns exageros (ele troca "you can be my wingman anytime" por "you can ride my tail anytime"), ele tem razão. Muito homem junto sempre proporciona momentos de viadagem. Repare em todas as fotos tiradas em partidas de futebol, esse nosso esporte tão másculo.

Para compensar o aspecto homo, é claro, temos os interesses românticos em "Top Gun", o que nos leva à cena do bar, onde Maverick, com o backing vocal de Goose, entrega o melhor xaveco da história do cinema cantando sua versão de "You've lost that loving feeling" para Charlie (Kelly McGillis). Na dublagem da TV, "ela perdeu aquele sentimento apaixonado". A música de Phil Spector cantada pelos Righteous Brothers (e depois pelo Rei Elvis) tornou-se a minha preferida de todos os tempos. O fato de ela ser a canção mais executada da história do rádio americano demonstra que a trilha sonora escolhida a dedo não está pra brincadeira. Além dela, "Top Gun" me apresentou a outro clássico maravilhoso: "Sittin' On (The Dock of the Bay)", do soulman Otis Redding, a música preferida da mãe de Maverick. Além disso, a compilação inspirada reafirmou o poder animador de "Great balls of fire" de Jerry Lee Lewis, cantada por Maverick e Goose ao piano. Essas três canções marcantes nem estavam na trilha sonora original, daquele LP comprado no Carrefour. Mais tarde lançaram uma edição especial da trilha em CD, com todas elas como faixas bônus, pra corrigir o erro.

O clima romântico com Charlie domina as próximas cenas do filme, sempre com ela insistindo em falar sobre o episódio do MIG 28. Charlie era uma maria-gasolina (no caso, troque a gasolina pelo combustível dos aviões) com PhD em astrofísica! Sempre achei que o casal Charlie e Maverick não combinava. Ela parecia mais velha, mais madura, mais sábia, mais respeitável e até mais alta do que ele. Quer dizer, Tom Cruise era o sonho das garotas, mas nunca conheci nenhum cara que fosse apaixonado pela Kelly McGillis. O romance só engrena mesmo quando os primeiros acordes de "Take my breath away" aparecem. São muitas as cenas em que o casal fica em silêncio e deixa a música "do the talking", se é que você me entende. Toda a cena de sexo, com as silhuetas em slow motion, ganha força com a música. "Take my breath away", da banda one hit wonder Berlin, na verdade é criação do mito dos sintetizadores e das trilhas 80's Giorgio Moroder, grande responsável pela trilha de "Top Gun" ao lado de Harold Faltermeyer, o autor dos temas incidentais. A música não só ganhou o Oscar, como se tornou o maior hit de bailinho de escola da época. Além dela, outras canções feitas especialmente para o filme merecem destaque, principalmente "Mighty Wings", a música que me fez conhecer o Cheap Trick, banda subestimadaça principalmente no Brasil. Só por ter me introduzido ao fantástico universo de Righteous Brothers, Otis Redding e Cheap Trick, "Top Gun" já mereceria todos os louros do mundo. Mas não é só na trilha que "Top Gun" presta homenagens aos anos 50 e 60. Alguns carrões antigos aqui e ali (no fundo da cena de vôlei, ou o conversível lindão de Charlie) dão um tom atemporal ao filme.

O clima festivo, em alta desde que Meg Ryan aparece como a histérica mulher de Goose ("Goose garanhão, me leve para a cama agora ou me perca para sempre" é outra frase memorável) dá lugar à tristeza quando Maverick começa a ter crises relacionadas ao seu finado pai, e principalmente quando Goose morre. Quão dramático é perder Goose no meio do filme? Que ponto de virada cruel no roteiro, deixando nosso herói solitário sem pai, sem amigo e sem a namorada, que arruma um emprego melhor no Pentágono. O que sobra pra Maverick é o incentivo do Mestre Viper, que conheceu seu pai, e os constantes conselhos do rival Homem de Gelo (Tarantino diria que eles têm uma paixão reprimida). Uma missão surge no final para curar as feridas do herói. Mais uma missão sem sentido, desta vez logo depois da formatura, o que leva todo mundo de volta ao porta-aviões do Oceano Índico e novamente contra MIGs - mas agora valento atirar. Um clichê danado seria o novo co-piloto de Maverick ser Viper ou algum outro personagem relevante, mas acaba sendo Merlin (Tim Robbins), que estava carente de companhia desde que seu parceiro Cougar afinou - essa história paralela poderia ter sido melhor desenvolvida. Na batalha final, Maverick recorre a lembranças de Goose ("fale comigo, Goose!"), que atua como uma espécie de Obi-Wan Kenobi na primeira Estrela da Morte. E depois da vitória com a tática do "vou frear e ele vai passar lotado" e mais uma emocionante rasante na torre, a tradicional comemoração na base lembra bem Luke Skywalker fazendo festa com a Aliança Rebelde. Lembrando que o conceito todo de "Top Gun" é "Star Wars na Terra e Rock'n'roll no céu", tudo bem coerente, mantendo as devidas proporções.

Apesar de ufanista e maniqueísta, falta em "Top Gun" um grande vilão. O típico conceito americano do vencedor, do número um ("and there's no point for second best") estão lá, mas os russos mascarados não são mais vilões do que os demônios pessoais de Maverick, e o rival Iceman acaba por se revelar um bom amigo. No epílogo, o clima vintage retorna com Charlie colocando a versão original de "You've lost that loving feeling" na jukebox do bar, enquanto Maverick toma um pint de cerveja. Os créditos aparecem com imagens dos atores (sempre gostei desse recurso apelativo) e a última cena é de dois F-14 voando romanticamente até o pôr-do-sol.

Você sabe que um filme é mais do que um simples longa-metragem quando: a) ele é citado com carinho por personagens de filmes como "Entrando numa fria"; b) ganha boas paródias exclusivas como "Top Gang - Ases muito loucos"; c) rende teorias de gente como Quentin Tarantino, que faz valer a existência de um filme bobo como "Vem dormir comigo"; d) é copiado descaradamente até pelos franceses, que se esforçaram em "Cavaleiros do céu"; e) ganha uma releitura com mesmo diretor, astro e enredo, só que trocando aviões por carros de corrida em "Dias de Trovão". E isso tudo sem apelar pra uma continuação!

Mais de 20 anos depois, "Top Gun" está tão enraizado na minha mente que me peguei cobiçando uma jaqueta no shopping, só porque ela me lembrou vagamente a sensacional jaqueta da marinha americana cheia de emblemas que o Tom Cruise usa o filme todo. A moda aviação é demais. Meu corte de cabelo com máquina, sempre igual, também vem daquela época, devo confessar. Os óculos de sol gigantes (estilo Amber Vision) saíram de moda e já voltaram. A moto de Pete "Maverick" Mitchell equivale a um F-14 no chão. E se a trilha sonora original parece meio datada (malditos sintetizadores!), os clássicos 50's e 60's estão atuais como sempre. Para aqueles que dão um soco no ar e gritam "uhu" ao lado de um avião decolando, para aqueles que imitam o cumprimento típico de Maverick & Goose, para aqueles que cantam bêbados em bar, "Top Gun" nunca vai perder aquele sentimento apaixonado.

Os Caçadores da Arca Perdida

("Raiders of the Lost Ark", 1981, Dir.: Steven Spielberg)



Eu tinha 10 anos quando meu pai comprou nosso primeiro videocassete. Naquela época eu já tinha meu interesse por cinema, recortava fotos de filmes dos jornais, ia ao cinema de vez em quando. Mas o videocassete foi um divisor de águas. Além dos filmes locados, eu podia gravar qualquer coisa que passasse na TV, em qualquer horário, pra ver e rever depois. Mais ou menos na mesma época, a Globo lançou a Tela Quente nas noites de segunda-feira. A primeira sessão foi no dia 7 de março de 1988, exibindo "O Retorno de Jedi". Ainda me lembro bem da vinheta que anunciava a primeira safra de filmes do programa, e sei que "Os Caçadores da Arca Perdida" foi o segundo ou terceiro filme exibido.

O impacto de um filme desses em um moleque de 10 anos dando seus primeiros passos no mundo do cinema é inacreditável. Foi o segundo milagre cinematográfico proporcionado por Steven Spielberg na minha vida. Se "E.T." foi o primeiro filme que vi no cinema, que me fez gostar daquela coisa de ir até uma sala escura e ver uma história na telona, "Os Caçadores" foi além. Foi vício imediato, muitas revisões na sequência, brincar de Indiana Jones no meio do mato cantarolando a trilha sonora, adaptar bonequinhos dos Comandos em Ação de modo que ele ficasse mais ou menos parecido com o personagem. E pensar que até hoje não apareceu por aqui um "action figure" oficial do herói. Talvez esse ano, com o lançamento do quarto filme.

Hoje é fácil dizer que o primeiro filme do Indiana Jones é um clássico e apontar todas as suas virtudes. Mas naquela tenra idade, muita coisa me empolgava demais à primeira vista. A própria série "Star Wars", desenhos como He-Man e Thundercats, séries como "Moto Laser" e "Águia de Fogo", era tudo muito apaixonante. Sem muito embasamento, pra mim filmes B da América Vídeo como "American Ninja - Guerreiro Americano" (com Michael Dudikoff), "Firewalk - Os Aventureiros do Fogo" (com Chuck Norris e Louis Gossett Jr.) e "As Minas do Rei Salomão" (com Richard Chamberlain) eram tão bons quanto "Os Caçadores da Arca Perdida". Porém, bastavam uma ou duas revisões pra estabelecer as diferenças gritantes entre o original e as cópias. No mínimo, os concorrentes não tinham a trilha do John Williams.

Na verdade, o que os outros não têm é o charme. Do logo da Paramount se transformando em montanha de verdade no começo até o final, com a Arca da Aliança sendo esquecida num depósito gigantesco, "Os Caçadores da Arca Perdida" transborda charme. Spielberg e seu amigão George Lucas queriam homenagear as aventuras das matinês que eles viam na infância, assim como todos os filmes de James Bond que eles não podiam fazer por não serem britânicos. De certa forma, criaram o universo de Indiana Jones da mesma forma que Robert Rodriguez e Quentin Tarantino fizeram no projeto "Grindhouse", como uma válvula de escape para homenagear ícones da infância. E ao fazer isso, criaram ícones da minha própria infância. E assim o ciclo da vida segue em frente.

Já nos letreiros de "Os Caçadores da Arca Perdida", eu costumava perder tempo tentando descobrir as funções de cada profissional. O que o produtor executivo fazia, afinal? Acabei me acostumando com nomes como Michael Kahn (editor) e Frank Marshall (produtor). E que filme poderia dar errado com Lawrence Kasdan (roteiro) e Philip Kaufman (história, ao lado de George Lucas) cuidando das letras?

O antológico prólogo também era homenagem aos prólogos da série 007. Spielberg precisou de apenas 12 minutos pra apresentar o personagem e estabelecer todas as regras do jogo. Da fantástica cena do ídolo de ouro, passando pela fuga da bola gigante até a escapada final no avião, Indy nunca perde o chapéu e o chicote, revela seu medo de cobras e sua sorte descomunal, é inteligente, tem senso de humor e sabe o que está fazendo. Da heróica silhueta à sua primeira aparição "humanizada" como professor, de óculos e meio atrapalhado como um Clark Kent sem superpoderes, o Indiana Jones de Harrison Ford já conquistou o público e o filme nem começou direito. E depois desses 12 minutos ninguém mais devia se lembrar que era o Han Solo ali, de chapéu e jaqueta surrada. O prólogo ainda trazia o ator Alfred Molina às voltas com aranhas, muito antes de viver o Dr. Octopus em "Homem-Aranha 2".

Cria de Spielberg e Lucas, dois dos maiores e mais poderosos nerds do planeta, Indy também tinha que ser um grande nerd. A troca de olhares dele com Marcus Brody (Denholm Elliot) quando os agentes secretos mencionam a cidade de "Tânis" é bastante nerd. Quando Indy abre o livro pra mostrar a ilustração da Arca da Aliança, a trilha sonora de John Williams ganha um ar de mistério e de tragédia, mostrando que a coisa é séria. Logo Indy será avisado por dois amigos próximos (Marcus e Sallah, vivido por John Rhys-Davies) que está prestes a encarar um perigo mortal, e eles não estão falando só dos nazistas. É a tal criação do suspense. Spielberg já dominava a arte, depois de "Tubarão". Curioso como os nazistas não aparecem tão ameaçadores assim. Muitas vezes eles são até divertidos, como aquele chefão nazi que usa um cabide muito suspeito e tem o medalhão marcado na mão. Spielberg deveria estar guardando a maldade para "A Lista de Schindler". Em "Caçadores", eles atuam como os vilões de James Bond, aqueles loucos que querem dominar o mundo. Hitler é o Blofeld do mundo real. Só que ao invés de uma super arma atômica, eles querem a Arca da Aliança. Até a ilha pra onde eles levam a Arca é muito coisa da SPECTRE.

O caminho do avião pontilhado no mapa, outra marca registrada da série, nos leva até o Nepal, onde encontramos Marion Ravenwood (Karen Allen). Filha do mentor de Indy, Abner Ravenwood (que não aparece no filme), ela teve um caso com o arqueólogo quando ainda era uma moça ingênua. Indiana cafajeste partiu seu pobre coração e a moça acabou se entragando à cachaça no Nepal. Isso que é um pé na bunda. A dublagem de Marion na TV era horrível e durante um bom tempo eu tive um pouco de bode dela. Pra mim, Indiana merecia coisa melhor. Talvez uma daquelas estonteantes bondgirls. Mas nada como o amadurecimento pra te mostrar algumas coisas nessa vida. Hoje vejo Marion como uma personagem forte e cômica, com uma química perfeita com o protagonista. Não à toa, ela foi a escolhida para ser a mãe do seu filho (como veremos em "O Reino da Caveira de Cristal"), porque ela é muito melhor que as Indygirls posteriores.

Toda a sequência do reencontro de Indy e Marion no Nepal e a chegada dos nazistas ao bar, em busca do medalhão, é um primor. Spielberg brinca de western e de filme de gângster ao mesmo tempo. Ele usa sombras, silhuetas e chamas na composição dos planos, tem os enquadramentos calculadíssimos e a coreografia de luta muito bem ensaiada. Os efeitos sonoros do tiroteio, do fogo crepitando, da bebida pingando e das garrafas quebrando só completam a perfeição da cena.

Do Nepal para o Cairo, temos outra sequência de ação de tirar o fôlego pelas ruas da cidade, e uma cena clássica: Indy mostrando que o revólver é mais poderoso que a espada. Ele mata o cidadão local com um desprezo poucas vezes visto no cinema. No nosso mundinho politicamente correto de hoje, uma cena dessas jamais sairia do papel. Imagine um norte-americano executando um oriental assim, friamente, no pós-11 de setembro. Se o próprio George Lucas fez o Greedo "atirar antes" em Han Solo na reedição de "Guerra nas Estrelas", é óbvio que a cena dos "Caçadores" deve causar desconforto em seus autores, ambos mais velhos e menos ousados. É uma atitude que todos até esperariam do mercenário Han Solo, mas nem tanto do respeitável arqueólogo Indiana. E isso é muito legal. Pouco depois, achando que Marion está morta, Indy está enchendo a cara em mais uma atitude não muito digna. E mais um pouco depois o luto já foi superado, estamos no acampamento nazista em busca da localização do Poço das Almas, onde está a Arca. "Os Caçadores da Arca Perdida" tem um ritmo impecável, não passa 5 minutos sem que algo de muito importante ou emocionante aconteça.

A cena da sala do mapa, quando Indy usa um cajado e um medalhão para descobrir o local exato do Poço das Almas, é uma das minhas preferidas do filme. Repare como a trilha de John Williams acompanha a luz que vem de fora e passa pelo cajado para mostrar o local. E Indy, passivo, assiste à obra divina, à luz guiando seu caminho. É de chorar. Durante algum tempo quis ser arqueólogo só por causa dessa cena. Devido à minha dificuldade em decorar datas e anos, deixei a idéia pra lá. O curioso é que, anos depois, notei que tenho facilidade de guardar anos de lançamentos de filmes. Mas me pergunte anos de posses de presidentes e eu me atrapalho todo. Vai entender.

Conforme Indy se aproxima da Arca, os maus presságios aumentam. Uma tempestade que nunca chega a cair se aproxima. A trilha fica tensa. O chão está se movendo. Cobras. Por que tinham que ser cobras? Você desce primeiro. Belloq, o francês que se define como o Indiana Jones do lado negro da força, é fraco de bebida. Marion não morreu. Ela e Indiana são trancados no Poço das Almas. Uma tática de vilão de James Bond: ao invés de matar o herói com um tiro na testa, deixe-o trancado em algum lugar perigoso. Indy sorri e solta um "filho da puta" sarcástico para Belloq. O humor cínico me lembra Fox Mulder, outro destemido caçador de tesouros que não pertencem a este planeta. Trancada na tumba, Marion ainda tem momentos de terror entre caveiras que gritam. Terror, suspense, aventura, comédia e ação convivem numa boa. Fora dali, Indy tem que lutar no seu estilo particular (punho cerrado, mordida, areia no olho, chute no saco) em tarefas de videogame: fuja das hélices, cuidado com a gasolina derramada, salve Marion presa na cabine, derrube o gigante e faça tudo isso antes de o avião explodir. É muita diversão por segundo, e não pára. Uma perseguição de 7 minutos ainda coloca Indy a cavalo atrás do exército nazista, em uma sequência inacreditável onde ele vai deixando cada soldado comendo poeira pelo caminho. Outra cena antológica (já perdi as contas de quantas foram): o herói toma um tiro, é jogado na frente do caminhão e vai parar atrás dele, arrastado por uma corrente.

Após uma reviravolta que coloca a Arca novamente nas mãos dos vilões e uma cena romântica frustrada (James Bond jamais perderia essa oportunidade, Indy), "Os Caçadores da Arca Perdida" parte para seu clímax. A preparação da cena lembra o final de "Contatos Imediatos do 3º Grau", a expectativa pela chegada do desconhecido é grande, há câmeras por toda parte e gente do exército envolvida. O que os céus estarão reservando para nós? De alguma forma, o final de "Contatos" é feliz mesmo com o personagem de Richard Dreyfuss indo embora deste planeta, deixando família e amigos pra trás. E de alguma forma, o final de "Caçadores" é melancólico, mesmo com todos os vilões derretendo com as forças do além. O show de efeitos especiais da Industrial Light & Magic com a sempre perfeita trilha de John Williams capricham no horror, quando os fantasmas da Arca se tornam monstruosos. Indy e Marion fecham os olhos e sobrevivem. Fosse hoje, algum chato meio comunista, meio intelectual diria que Deus castigou todo mundo, menos os americanos. E o final melancólico continua quando a Arca é confinada no imenso galpão do governo, em cena homenageada no final da primeira temporada de "Arquivo X". Deve ter sido minha primeira indignação contra o governo, contra teorias conspiratórias, contra o sistema. Que final genial colocar o grande McGuffin da história em um depósito, como um brinquedo perigoso que sua mãe guarda no maleiro pra você não se machucar mais. E quem nunca parou pra pensar no conteúdo de todas aquelas outras caixas?

Assim termina "Os Caçadores da Arca Perdida", com a "Raiders March" de John Williams estourando os alto-falantes em toda sua plenitude, pela primeira vez. Não demorou muito pra eu ver "Indiana Jones e o Templo da Perdição". Estava de férias na praia, na casa do meu primo, e alugamos. De uma só vez, foram "O Templo", "Blade Runner" (por causa do Harrison Ford, é claro) e uma tranqueira sem tamanho chamada "A Guerreira de Indiana Jones", tradução oportunista do original "Yellow Hair and the Fortress of Gold", um dos piores filmes que já vi na vida. Quando "Indiana Jones e a Última Cruzada" foi lançado em 1989, apesar do pouco tempo de diferença, parecia que eu já tinha amadurecido décadas. Já era leitor assíduo da revista Set e não caía mais nas enganações de filmes picaretas com tanta facilidade. Foi nessa época que vi uma matéria no telejornal da região de Leme dizendo que o chapéu de Indiana Jones era fabricado em Campinas. Eu e meu pai fomos até lá e compramos um pra cada. Até hoje é meu souvenir nerd preferido. Enquanto não lançarem um sabre de luz de verdade, ele vai continuar sendo. Graças ao chapéu, no único baile a fantasia ao qual já fui, fui vestido de Indiana, com orgulho. Naquela época não havia Harry Potter e portanto não haviam muitas fantasias legais para rapazes de óculos, mas o Indiana Jones aceitava óculos numa boa, mesmo em seu traje de aventureiro. Existem heróis do cinema que você gostaria de ser, e existem heróis que você PODERIA ser. Você não precisa ser perfeito para ser Indiana Jones, porque ele não é o James Bond. É um herói humano, engraçado, cínico, cheio de falhas, com a barba por fazer, que usa óculos e dorme na única pausa onde poderia estar fazendo sexo com a mocinha.

Cultuado por gente do porte de M. Night Shyamalan e Bryan Singer, "Os Caçadores da Arca Perdida" é uma amostra de como Spielberg é capaz de definir gêneros. Se ele resolve fazer um filme de monstro, ele não faz um filme de monstro qualquer, ele faz "Tubarão". Se ele resolve fazer um filme de OVNIs, ele faz "Contatos Imediatos do 3º Grau". Se ele resolve fazer um filme sobre o Holocausto, faz "A Lista de Schindler". Quando ele resolveu homenagear as aventuras à moda antiga, ele simplesmente criou a melhor aventura que o cinema já viu. E um herói que não veio de livros ou quadrinhos, mas que tem tudo a ver com o cinema e com aqueles que frequentam cinema.

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