Alien - O 8º Passageiro

("Alien", 1979, Dir.: Ridley Scott)



Ao contrário da grande maioria das séries do cinema, cada filme da série "Alien" tem uma personalidade diferente, de acordo com seu diretor. Sei lá se alguém planejou que seria assim, mas acabou sendo. "Aliens - O Resgate" é uma ficção de ação no melhor estilo "O Exterminador do Futuro", por causa do James Cameron. "Alien³" é um suspense claustrofóbico muito melhor que o posterior "O Quarto do Pânico", também de David Fincher. "Alien - A Ressurreição" é... bem, eu só consigo me lembrar das barbaridades cometidas pelo Jean-Pierre Jeunet, como aquele bebê híbrido de alien e humano, então deve ser mesmo a "Amélie Poulain" da série. Mas tudo começou com Ridley Scott em 1979 no filme que definiu as regras do jogo: "Alien - O 8º Passageiro". Como Scott ainda não era tão conhecido na época (tinha feito apenas "Os Duelistas" dois anos antes), não dá pra dizer que havia um estilo autoral ali. Mas, olhando hoje, eu definiria "Alien" como um filme de monstro, um filme de terror. Um filme B que deu certo.


Nomes como Dan O'Bannon (roteirista e consultor do visual) e Walter Hill (co-produtor) apóiam minha tese. "Alien" tem o espírito de um filme B. Hoje em dia, qualquer cineasta sem talento como Paul W.S. Anderson e Stephen Sommers consegue uma fortuna de orçamento pra rodar porcaria. Naquela época, no final dos anos 70, os discípulos de Roger Corman despontavam com clássicos como este - ainda que "Alien" disfarce bem seu caráter B com a direção elegante de Ridley Scott e sua preocupação com o visual. Scott veio da publicidade britânica, então de estética ele entende. Assim como "Blade Runner", o design de "Alien" marcou época. O layout do monstro mais legal do cinema e dos cenários góticos foi criação do designer suiço H. R. Giger, sua cabeça proeminente foi criada por Carlo Rambaldi (o criador de "E.T.") e o "concept design" do filme teve pitacos de gente como o desenhista fracês Moebius. Ninguém acerta assim do nada.

O primeiro "Alien" definiu o gênero "terror no espaço", inspirando todo e qualquer filme posterior com uma tripulação perdida no espaço enfrentando ameaças desconhecidas, como "O Enigma do Horizonte" e "Sunshine - Alerta Solar". Assisti pela primeira vez na TV, uma das várias indicações do crítico Inácio Araújo na Folha de São Paulo. Lembro bem da foto enorme que ilustrava o texto, com John Hurt vestido de astronauta iluminando um casulo asqueroso. Uma cena impactante já na foto de divulgação. Foto esta que eu devo ter até hoje, na minha coleção de fotos de filme guardada no maleiro lá de casa. "Alien" me lembra muito as revistas de sci-fi e filmes de terror da época em que o assisti (final dos anos 80), quando não havia internet e DVD e portanto making of era um negócio raro. A Set tentou lançar uma revista spin off para explorar o gênero, a Terror & Ficção, que não vingou muito. A maioria das tais revistinhas era importada, e era bom ter amigos com o mesmo gosto pela coisa para conseguir arrumá-las. Hoje o making of tornou-se a coisa mais normal do mundo, mas lá atrás ver a cabeça falsa do Ian Holm decepada com sangue de robô ao redor era um momento glorioso. Portanto, quando falo de "Alien", falo de toda uma experiência complexa de um moleque descobrindo a graça da ficção e do terror, de todo um universo que vai da diversão gore do Freddy Krueger à antropologia filosófica de "2001 - Uma Odisséia no Espaço".

Como "2001", "Alien" tem muitos silêncios. A trilha de Jerry Goldsmith aparece pouco e, nas cenas mais pesadas de suspense, são os batimentos cardíacos que dão o tom. A abertura usa um travelling debaixo da nave Nostromo, igual o começo de "Guerra nas Estrelas", enquanto o título se forma. Na sequência, passeamos pelo interior da nave, conhecendo o território onde o pau vai comer em breve, enquanto a tripulação de sete passageiros hiberna. Perceba que "Alien - O 8º Passageiro" é um título muito bom, mas nunca ninguém questionou a presença do gato Jones. Ele sim era o oitavo passageiro. O alien era mais um clandestino, um imigrante ilegal. Nunca foi um passageiro. Dito isso, vamos a eles: os passageiros de fato.

A primeira meia hora de filme é uma grande apresentação dos personagens. "Alien" segue a fórmula dos filmes-catástrofe que apresentam os personagens para depois ir matando-os um de cada vez. Não é a mesma coisa dos slashers de Freddy Krueger ("A Hora do Pesadelo") e Jason Vorhees ("Sexta-Feira 13"), porque nesses casos a personalidade das vítimas pouco importa. Aqui, a referência maior são os filmes-catástrofe dos anos 70, como "Inferno na Torre" e "O Destino do Poseidon", com seus elencos estelares indo pro vinagre. Mesmo que os personagens não tivessem personalidades bem definidas, você torcia para o seu ator favorito não morrer tão cedo. Ou pelo menos para não ter uma morte muito sofrida.

Em "Alien", as vítimas são: Dallas, capitão e líder (Tom Skerritt); Ripley, a moça destemida (Sigourney Weaver); Lambert, a moça medrosa e desesperada (Veronica Cartwright); Parker, o negão operário injustiçado (Yaphet Kotto); Brett, o operário sem personalidade (Harry Dean Stanton); Kane, o explorador curioso (John Hurt) e Ash, o cientista frio e calculista (Ian Holm). Nenhuma grande patente militar à bordo, lembrando que a Nostromo é simplesmente um cargueiro e não uma nave de propósitos bélicos. São todos funcionários da tal Companhia. Temos até conflitos de causa operária ali - Parker quer renegociar seu contrato, é quase um sindicalista, um reflexo dos politizados filmes norte-americanos sobre o proletariado tão comuns nos anos 70. Não tem ninguém com pinta de herói. Assim, apesar de algumas dicas do roteiro, coloque-se na época do lançamento do filme (sem sequências e ícones pré-estabelecidos) e você não tem como saber quem vai sobreviver - se é que alguém vai. Dallas é o líder, mas John Hurt talvez fosse o nome mais conhecido do elenco, então não sei quem apostou suas fichas na Ripley de Sigourney Weaver, que viria a se tornar a personagem feminina mais fodona do cinema.

O sono dos sete passageiros é interrompido pela Mãe, a inteligência artificial que comanda a Nostromo em sua jornada de volta à Terra. Um HAL 9000 menos participativo, mas tão mal intencionado quanto. Apesar do computador da era MSX com caracteres verdes, a opção por mostrar a nave sempre imersa na escuridão do espaço, além de aumentar a angústia constante do filme, torna o futuro apresentado convincente até hoje. Algo que sempre me incomodou na série "Star Trek", por exemplo. Eles mostram demais. "Alien" esconde tudo com sombras, vapores e luzes azuis. Quando a Mãe intercepta sinais de vida em um planeta ali perto, seguindo as diretrizes da Companhia, eles são obrigados a investigar. Após o tradicional problema na aterrissagem, a tensão começa a tomar conta de verdade quando Dallas, Lambert e Kane partem para a exploração do planeta, monitorados pelo pessoal da Nostromo e com as câmeras do capacete mostrando a ação (James Cameron usaria muito isso no segundo filme). Logo, Kane encontra a colônia de embriões e volta para a nave com um novo amigo grudado na cara. A coerente Ripley não quer autorizar a volta do colega contaminado, mas Ash libera a entrada e o resto é história.

O ovo de alien e seu organismo hospedeiro são das coisas mais nojentas já apresentadas pelo cinema. A se ressaltar os símbolos fálicos tanto no tal organismo quanto no formato da cabeça do alien. Deve haver algum estudo relacionando o design de "Alien" à ginecologia e à urologia, algo que explique porque sentimos nojo deles imediatamente utilizando conceitos básicos de psicologia. Não é só a gosma, eu tenho certeza. Kane é colocado na maca com aquela mistura de aranha com lagosta na cara, e um tentáculo estrategicamente apertando sua garganta. Uma imagem perturbadora e asfixiante. Logo vão descobrir que o bicho tem sangue ácido. Logo ele vai ter sumido e Kane vai despertar com fome. Sempre me lembro daquela espécie de repolho que ele devora na clássica cena do nascimento do alien (tão bem parodiada por Mel Brooks em "S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço", com direito à participação especial do próprio John Hurt). Também graças à cena eu sempre fico aguardando algum efeito colateral quando me recupero de alguma doença. Kane engasga e convulciona. John Hurt capricha nos espasmos, mas é na cara de Veronica Cartwright que o sangue explode quando o "bebê" nasce. Lambert é a "scream queen" do filme, a responsável por gritar e se descabelar diante do horror. Quando o alienzinho dá as caras, ainda na forma recém-nascida, já estamos com quase 1 hora de filme - lição aprendida com o "Tubarão" de Spielberg: mostrar pouco do monstro, segurar a tensão, guardar o suspense pra mais tarde. Kane é a primeira vítima. Faltam seis.

Com o alien solto na nave, começa a caçada - embora você não saiba quem exatamente está caçando quem. Ash aparece com o localizador, outra ferramenta de suspense que será muito usada no resto da "saga". É um dos muitos elementos que viriam a se tornar clichês do gênero. Afinal essa é uma das funções do clássico: criar clichês. Como o tradicional susto do gato. O bichano escapa e Brett vai atrás dele. Quando as batidas de coração voltam, você já sabe que ele vai morrer. Quem volta para salvar o bicho sempre morre. Começa o desfile de mortes criativas, uma melhor que a outra. Brett encontra seu destino em um cenário gótico, com correntes, ganchos e água pingando. Pela primeira vez o alien aparece em sua forma adulta (como ele cresceu tão rápido?), amedrontador, escondido nas trevas com sua carapaça brilhante e toda a baba que lhe é peculiar. Seu design mistura tudo que pode causar repulsa, elementos gore (vísceras, gosmas), esqueleto, casca de insetos... e de alguma forma o conjunto final ainda consegue ser elegante, o tipo de estátua que você teria na estante. Quer dizer, eu teria. O close no rosto do gato enquanto Brett é dilacerado é cortesia do talentoso Ridley Scott e tem um toque de "Blade Runner" ali, na impassividade do gato perante a tragédia. Brett é a segunda vítima. Faltam cinco.

O Capitão Dallas resolve caçar o alien no duto de ventilação, outro elemento que se tornaria clichê. Todo filme de terror e ficção que se preze deve ter a sua cena no duto de ventilação. De preferência com algum sacrifício heróico. O duto é claustrofóbico por natureza, você não tem como fugir dele. Quando juntam duto + localizador, o resultado é pânico. De novo é Lambert a responsável por este pânico, acompanhando o sinal do alien se aproximando rapidamente do sinal de Dallas. O líder que deveria ser o herói do filme já era. Faltam quatro.

Na ausência do Capitão, Ripley chama para si a responsabilidade. Sua primeira ação como líder dos sobreviventes é intelectual: ela pergunta ao computador de bordo o que está havendo e descobre que a Companhia quer o alien vivo. Regra básica em filme de monstro: em algum momento, por pior que seja a ameaça assassina, é preciso mostrar que o ser humano é sempre a pior espécie. No caso, Parker tinha razão em sua paranóia proletária: os executivos ausentes da Companhia é que são os verdadeiros vilões. Eles deixaram o monstro entrar. Eles querem o bicho vivo para a divisão de armas biológicas - algo mencionado rapidamente aqui, mas que fica bem claro nos outros filmes da série. Portanto, a tripulação é descartável. Tem início uma luta brutal entre Ripley e Ash, que defende os interesses da Companhia. Quando Ash sangra um sangue branco, descobrimos que ele é um andróide, um replicante de força superior, que exige a união dos três humanos para ser liquidado. Ok, Ash está morto. Faltam três.

Os sobreviventes decidem explodir a nave e fugir na cápsula de emergência. Ripley ainda perde tempo salvando o maldito gato Jones, enquanto Parker e Lambert vão arrumar as malas. Deus sabe como a personagem mais desesperada sempre tem a morte mais sofrida nos filmes-catástrofe. O destino de Lambert é cruel, ela é quase estuprada pelo alien, mas não sem antes acompanhar o triste fim do colega Parker, empalado com requintes de crueldade bem na sua frente. Se você tinha alguma dúvida de quem era a heroína do filme desde o princípio, a única com atitudes nobres e coerentes o tempo todo, suas dúvidas acabaram, porque só sobrou Ripley viva. Além do gato, é claro. E aos 1h37 de filme, Ripley encara o alien pela primeira vez. Desespero total. A contagem regressiva está rolando, luzes de emergência piscam, vapores explodem e a câmera corre pelos corredores da Nostromo acompanhando Ripley. Muitas vezes o design dos corredores se confunde com a textura da criatura, o que não é por acaso. O alien pode estar em qualquer lugar. Inclusive dentro do módulo de fuga, o que Ripley só vai descobrir no epílogo, quando todos acham que já está tudo bem. Aquele susto final que nós tanto adoramos.

Antes disso, porém, Sigourney Weaver faz seu antológico striptease, preparando-se para hibernar. Ripley de calcinha cintura-baixíssima (pagando cofrinho!) e top transparente é uma cena tão emblemática para os fãs homens heterossexuais de sci-fi quanto a clássica Léia Escrava de "O Retorno de Jedi". Depois de tanto sofrimento e tantas demonstrações de força com aquele lança-chamas na mão, você até tinha esquecido que a Sigourney Weaver era a maior gata em 1979. O que nos leva a um assunto que não foi discutido o suficiente: a sexualidade de Ripley. Ela é uma guerreira destemida, é chamada pelo segundo nome assexuado (o primeiro é Ellen, mas eu nem sei como tenho essa informação guardada até hoje, porque nunca o utilizam) e despe-se de qualquer traço de vaidade ao longo da série (principalmente nos cortes de cabelo), apesar da insinuação de alguns romances - ou pelo menos o mínimo afeto - com o sexo oposto. Mais do que os affairs masculinos, é no instinto materno que Ripley prova sua feminilidade, seja com a menina do segundo, com o alien do terceiro ou, vá lá, com o gato do primeiro. Nenhum homem salvaria aquele gato. Só o Brett, que morreu tentando. Ripley talvez seja mais do que a mulher mais fodona do cinema: ela pode ser um protótipo da mulher moderna. Guerreira, inteligente, independente e sobrevivente. Ela nem precisa de um macho pra salvar sua pele. Regozijai-vos, feministas. E coloquem uma estátua do Ridley Scott na sede do clube, porque depois ele ainda faria "Thelma & Louise" e "G.I. Jane".

Retomando, a (agora) sexy Ripley encontra o alien dentro do módulo, a Nostromo já foi pelos ares, e após uma sequência de suspense quase insuportável o bicho encontra seu destino na turbina da pequena nave. Nossa heroína vai dormir o sono dos justos sem saber se um dia será resgatada e, revendo hoje, você pensa: que sacanagem, ela ainda vai passar por coisa muito pior. Essa é outra diferença de "Alien" com outros filmes de monstros: a heroína é sempre a mesma, o vilão nunca se torna personagem principal, nem vira caricatura. Os aliens são o karma de Ripley. Não há explicação melhor.

"Alien - O 8º Passageiro" tanto é um filme de monstro que não apresenta nenhum conceito de ufologia, não é referência no assunto, não foi citado no "Arquivo X". Nunca soubemos nem a raça do bicho, de onde ele veio, para onde ele vai. Ele só é definido como uma máquina de matar, um organismo perfeito, uma arma indestrutível, um assassino sem moral e sem remorso. "Alien" virou sinônimo de alienígena malvado que vai te comer, da mesma forma que "E.T." é um simpático visitante do espaço, mais do que uma sigla. Infelizmente, a série não expandiu sua mitologia, como aconteceu com "O Exterminador do Futuro", que expandiu a ponto de não precisar mais do Schwarzenegger. James Cameron chegou a reclamar dos rumos que David Fincher deu à série no terceiro episódio, mas ele reclamava de barriga cheia. "Alien" caiu nas mãos erradas e até virou sparring do Predador nessa nova série idiota. "Alien Vs. Predador", isso sim é cinema B. "Alien - O 8º Passageiro" não. O melhor da série é também o filme de terror no espaço definitivo, lá em cima, onde ninguém pode ouvir você gritar. Esse é cinemão dos bons.


Sigourney Weaver e Ridley Scott

7 comentários:

Cecilia Barroso disse...

Gostei da sua idéia!
Vou acompanhar!

Daniel G. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lindinho disse...

que frase mais mais como eu vou dizer....não sei...mas é no sentido de dep´ressiva e chocante ao mesmo tempo

'lá em cima, onde ninguém pode ouvir você gritar.'

_,_

thito disse...

gostei do texto.
alien é mesmo um clássico da ficção.
achei legal ripley ter salvado o gato jones,o oitavo passageiro de fato hehehe.

Vinicius Claudio disse...

Grande análise.
Infelizmente estão queimando a franquia "Alien" (junto com a do Predador), mas Alien-o 8º Passageiro é um filmaço...outro filme que fui assistir muito tardiamente (lembro que foi um dos primeiros filmes da Tela Quente...é, eu não tinha muita referência). Ripley sempre será a minha heróina preferida!

Carlos disse...

Muito boa sua análise do filme. Alien, O Oitavo Passageiro é um clássico, um filme que continua atual e aterrorizante até hoje!

Agora com Ridley Scott retornando à mitologia de Alien com o filme Prometheus, quem sabe não tenhamos um revival digno do monstro mais apovorante do cinema... Por que "no espaço, ninguém vai te ouvir gritar"!

Mirna disse...

Sua análise do filme Alien é muito bom. Aproveite a leitura e eu concordamos em muitos dos argumentos que você diz. Eu também acho que é um clássico. Os clássicos ainda estão presentes, mesmo depois de um longo tempo as pessoas continuam falando sobre eles. Eu trabalho em uma loja de perfumes femininos importados, que também vende filmes e outras coisas. Este é o mês dos clássicos.