Era Uma Vez no Oeste

("Once Upon a Time in the West/C'era una volta il West", 1968, Dir.: Sergio Leone)



Existem filmes bons, filmes importantes, filmes queridos da vida... e existe "Era uma vez no Oeste". Provavelmente o meu filme favorito por muitos motivos que vão além da incontestável qualidade artística do mesmo. Assisti pela primeira vez ainda criança, programando o videocassete pra gravar de madrugada graças às indicações dos guias de cinema da Nova Cultural (do Rubens Ewald Filho) e do caderno Ilustrada da Folha (do Inácio Araújo), que eu seguia religiosamente na época. Se estava no top 10 de seu respectivo gênero no guia, eu tinha que ver. Se tinha carinha feliz na avaliação da Ilustrada, eu tinha que ver. Porém, mais do que os críticos renomados, vi "Era uma vez no Oeste" principalmente graças à indicação do meu pai, grande admirador de um bom faroeste. Posso dizer que esse filme é "o nosso filme".


Assistimos juntos algumas vezes e criamos laços com ele - como o São Paulo F.C. fez conosco no futebol, outra paixão que herdei dele com orgulho e que vai além do simples esporte. Essa relação culminou em um daqueles momentos marcantes da vida quando, em 2007, fomos ver o Ennio Morricone no Teatro Municipal do Rio, em um festival de música e cinema que quase passou batido - pouca gente fora do ramo cinematográfico ficou sabendo. Por sorte, conseguimos nos infiltrar nesse meio artístico sem muito sacrifício. Alguns anos depois, o Morricone voltou ao Brasil com mais pompa e os ingressos custavam muito mais do que um punhado de dólares. Até hoje não conheço muito bem a cidade maravilhosa, mas tenho as melhores memórias ali da Cinelândia, da aura imponente do teatro, do clima de entrega do Oscar que tomou conta daquela noite. Entre todas as composições sublimes do nosso maestro favorito, o tema de "Era uma vez no Oeste" se destacou soberano, uma experiência sobrenatural, uma demonstração de que Deus existe e gosta da gente. É isso que "Era uma vez no Oeste" representa na minha vida. Não é pouca coisa. Não é só um filme.

De longe, a trilha de Morricone é a minha preferida do cinema. As histórias sobre sua criação são fascinantes. Ela foi composta com base no roteiro de Sergio Leone e Sergio Donati e serviu tanto de inspiração para a atuação do elenco - dizem que era comum os câmeras trabalharem com lágrimas nos olhos durante a filmagem - quanto para o planejamento das cenas, que Leone coreografava de acordo com as músicas. Para o tema mais marcante de todos, "The man with the harmonica", Morricone diz que se inspirou "nos últimos suspiros de um homem". "Era uma vez no Oeste" tem esse caráter de réquiem, que o diretor classificou como "a dança da morte". Por isso existe essa relação meio sobrenatural entre a música e a imagem no filme. O resultado é um faroeste que é quase um musical, uma ópera. Se o título remete à fábula, é porque Leone se propôs a recontar a história do seu ponto de vista e realizar o western definitivo, perfeito, para encerrar uma era em sua carreira mostrando o fim de uma era na história norte-americana. Não deixa de ser irônico que a tarefa tenha sido realizada por um cineasta italiano, em mais uma demonstração de como os imigrantes europeus construíram a América.

Junto com meu pai, vi outros westerns clássicos como "Os Brutos Também Amam" e tantos outros com John Wayne. Eu já gostava das sessões da tarde com aqueles pastelões do Trinity (Terence Hill), então o chamado western spaghetti não era uma novidade pra mim. Mas passar das aventuras de Trinity para "Era uma vez no Oeste" foi um salto de maturidade. Foi como passar anos vendo os Trapalhões e de repente descobrir o Monty Python. E foi um salto também para Leone, que vinha de sua bem-sucedida Trilogia dos Dólares: "Por um Punhado de Dólares", "Por uns Dólares a Mais", "Três Homens em Conflito". Todos eles com Clint Eastwood como o pistoleiro sem nome que salvava o dia. Eastwood não quis o papel principal em "Oeste" e sua agenda de estrela em ascensão não permitiu nem a participação na abertura, ao lado dos outros "homens em conflito" Lee Van Cleef e Eli Wallach, como queria Leone. Uma pena. Um começo com esses três fazendo a transição de uma trilogia para a outra, sendo mortos por Charles Bronson, seria ainda mais épico do que já é. "Oeste" então deu origem a uma nova trilogia sobre a América, acompanhada por mais um western, "Quando Explode a Vingança", e uma obra-prima sobre a máfia, "Era uma vez na América".

Na comparação recorrente com outro clássico do gênero, o "Três Homens em Conflito" também de Leone, eu fico com "Oeste" não só pela questão afetiva, mas porque no conjunto da obra a saga me parece mais completa nas questões da conquista do oeste, da origem dos EUA, dos conflitos políticos e pessoais misturados. É um western levado a sério, mais relevante em seu contexto histórico e que ainda tem a ousadia de colocar uma personagem feminina como protagonista no meio de todos aqueles cowboys feios, sujos e malvados. Trata-se de um filme de menino, um bangue-bangue com mocinhos e bandidos cheio de elementos clássicos do gênero, com história criada por um trio poderoso do cinema italiano: Dario Argento, Bernardo Bertolucci e Sergio Leone. Mas apesar de toda essa testosterona, tudo gira ao redor da forte, valente e determinada Jill, vivida pela musa Claudia Cardinale.

"Era uma vez no Oeste" começa com um prólogo maravilhoso. Diz a lenda que são os mais longos créditos da história do cinema, 10 minutos até aparecer o nome do diretor Sergio Leone na tela. Três pistoleiros feios, sujos e malvados chegam a uma estação de trem, esperando alguém desembarcar. Leone orquestra a cena com quase nenhum diálogo e muitos efeitos sonoros: a porta rangendo, o giz na lousa, a biruta, o telégrafo, um estalar de dedos, uma mosca, uma goteira que insiste em pingar no chapeu de um dos pistoleiros. Dois parceiros de Leone ajudam a estabelecer o clima tenso e os enquadramentos épicos do prólogo: o editor Nino Baragli e o diretor de fotografia Tonino Delli Colli, caprichando no uso do technicolor. A espera traz uma sensação de angústia, de abandono. Os pistoleiros arrumam o que fazer. O da goteira bebe a água do chapeu. O da mosca prende o inseto no cano do revólver e tem prazer de ouvi-la sofrendo ali dentro. Eles são bandidos cruéis. O trem finalmente chega. Eles não encontram quem estavam esperando e resolvem partir. Quando o trem se vai, o som de uma gaita cortando a alma ecoa na estação.

Harmonica, o apelido do personagem sem nome de Charles Bronson, está do outro lado dos trilhos parado, cabeça baixa e gaita na boca. Ele levanta a cabeça em um daqueles primeiríssimos planos que são a marca registrada de Leone. Vemos a sujeira em cada linha de expressão do seu rosto. Quem ele queria encontrar ali não está presente, o tal do Frank. Ele pergunta: "trouxeram um cavalo pra mim?". Um dos pistoleiros responde: "parece que falta um cavalo", enquanto os outros riem. Harmonica emenda: "trouxeram dois a mais". O homem da gaita então derruba os três e sai ferido do duelo, mas já mostrou a que veio. Todo aquele prólogo virou poeira para apresentar o primeiro personagem importante do filme.

Corta para um pai e um filho caçando faisões. Uma família feliz prepara uma festa de recepção no rancho de Água Doce. O filho mais velho deve buscar alguém na estação, mas ele está atrasado. O pai, Brett McBain (Frank Wolff), está ansioso e promete um futuro melhor para a filha, mas sente que algo está errado. Leone mais uma vez brinca com o som, alternando grilos, insetos e revoada de faisões com o silêncio absoluto no rancho. McBain vai buscar água no poço e de repente ouvimos tiros. Os McBain são massacrados e só o filho mais novo sobrevive para ver a família morta e cinco pistoleiros saindo do meio do mato enquanto a trilha sonora macabra de Morricone toma conta da cena. O líder do bando é Frank, que vemos em close mascando fumo, pensando no que fazer com o menino. E Frank é Henry Fonda, até então exemplo de bom moço em Hollywood, desta vez um vilão extremamente cruel a ponto de matar uma criança só porque ela ouviu seu nome. Frank sabe, ou deveria saber, que crianças traumatizadas podem se tornar adultos vingativos.

O som do tiro se mistura ao apito de um trem chegando a Flagstone para apresentar a terceira personagem, Jill (Claudia Cardinale), que desembarca sem ninguém para recepcioná-la. Sem maiores explicações, você entende que Jill vinha para assumir seu papel como Senhora McBain, que seu sonho foi frustrado pela ação do vilão Frank, que está sendo caçado por Harmonica. Que beleza de roteiro e de apresentação de personagens. Enquanto ela caminha pela estação, o filme nos apresenta o seu contexto histórico mais claramente: com ela desembarcam índios escravos, trabalhadores, cavalos, sinais de que um novo mundo começa a se formar ali. Morricone nos apresenta o tema principal do filme, mais solene e menos trágico, enquanto Jill atravessa a estação e entra na cidade, com a câmera subindo junto com a música ao revelar Flagstone em um movimento lindo copiado por Robert Zemeckis em “De Volta para o Futuro - Parte III”. Jill paga um homem para levá-la até Água Doce e no caminho eles passam por Monument Valley, o mais clássico dos cenários dos faroestes, um capricho de Leone para homenagear John Ford e outros grandes do gênero. Zemeckis também passaria por ali com DeLorean e tudo.

Jill e seu “motorista” param em um entreposto sujo no meio do caminho, cenário com direção de arte incrível, onde o quarto personagem será apresentado. Após ouvirem uma grande agitação e um tiroteio do lado de fora, entra Cheyenne (Jason Robards) em grande estilo, porque todos os personagens principais têm apresentações triunfais. Ele pede uma bebida e quando levanta a garrafa para beber, vemos que ele está algemado. No mesmo instante, ele ouve o som da gaita vindo de um canto escuro do estabelecimento. Então ele lança o lampião na escuridão revelando Harmonica, sentado em cima de um balcão, tocando sua música de morte. Entre sombras, olhares desconfiados e buracos de bala, os dois estabelecem uma relação. Eles se reconhecem como semelhantes, se respeitam.

O bando de Cheyenne usa as mesmas roupas dos homens que Harmonica matou na estação, casacos da cor do deserto. Já os homens de Frank usam preto, porque é assim que tem que ser. Harmonica manda mais uma de suas grandes frases: “Dentro desses casacos haviam três homens. E dentro desses homens haviam três balas.” Em breve todos vão deduzir que o bando de Frank está se disfarçando para botar a culpa em Cheyenne. Enquanto isso, Jill tem uma boa conversa com o barman. Ele diz que gosta da vida no interior e que não daria certo na cidade grande, “cheia de homens rápidos e mulheres perdidas”. Pobre barman, nem desconfia que os homens rápidos e as mulheres perdidas estão chegando a sua cidadezinha junto com o progresso.

Jill chega a Água Doce e é recebida com um velório. Ela conta que se casou com McBain há um mês em Nova Orleans. Sua esperança de uma vida nova mal começou e já acabou. A ex-prostituta agora é uma viúva solitária bem no meio de pistoleiros malvados e homens de negócios exploradores. Mais uma bela cena silenciosa representa isso tudo, quando Jill se deita sob o vel da cama, olhando para o teto (e para a câmera) em seu luto solitário.

A essa altura dos acontecimentos, Harmonica já sabe que Frank não foi ao seu encontro na estação porque estava ocupado matando McBain e colocando a culpa em Cheyenne. Ele só não entende, ainda, qual o valor de Água Doce para causar tanto problema. Cheyenne vai até Jill para esclarecer que não matou sua família. E principalmente para limpar sua honra, já que não costuma matar crianças. “O mundo está cheio de gente que odeia o Cheyenne”, ele explica. A vivida Jill custa a acreditar nele. Acha que ele está ali para estuprá-la. “Nenhuma mulher morreu disso. Eu só vou precisar de água fervendo para voltar a ser o que era, só que com mais uma lembrança suja”. O velho oeste nunca foi um bom lugar para mulheres. Ainda mais para Jill, vinda da cidade grande, incapaz de acender o fogo para fazer um simples café. Cheyenne logo percebe que ela era uma prostituta, “porque me lembra minha mãe, a melhor mulher que já viveu”. Não dá pra não se apaixonar por esses personagens.

Conhecemos então o verdadeiro vilão da trama, aquele cujos planos interferem na vida de todos os nossos personagens já apresentados: o barão da ferrovia Morton (Gabriele Ferzetti), que contratou Frank para remover obstáculos como McBain do caminho da estrada de ferro. Porque ninguém pode parar o progresso da civilização. Morton é o imperialista, o explorador, o burguês capitalista mais sujo que os cowboys. E ele também é aleijado, vítima de tuberculose óssea, vive de muletas sem sair do seu luxuoso vagão. Ou seja, ele vive na máquina, faz parte dela, depende da tecnologia, o que o torna frágil apesar de poderoso, um contraste com a brutalidade crua do oeste. Ele é a cidade grande avançando sobre o interior. Seu objetivo é chegar de trem ao Pacífico e ver o mar, com o qual ele sonha todo dia.

Morton vive em constante conflito com Frank. O primeiro defende que o dinheiro é capaz de vencer qualquer batalha. O segundo prefere usar um revólver. Neste combate particular, o vilão Frank acaba ganhando contornos de mocinho, como se o filme quisesse mostrar que, por pior que seja o assassino de aluguel, o mandante que paga as contas e lucra com o assassinato sem sair de trás da mesa ainda é muito pior. O duelo entre os dois é ideológico, mas no final das contas um depende do outro para sobreviver. No momento, a viúva McBain é o obstáculo que os dois devem superar.

Jill sabe que está em perigo e resolve partir. Quando está arrumando as malas, ouve a gaita. É genial como o som da gaita sempre antecipa a chegada dele. Gera suspense, gela a espinha, cria-se um mito. Harmonica não a deixa partir. Dá a entender que matou a família McBain e que vai estuprá-la, mas sua intenções são outras. Ele manda a moça ir buscar água no poço, um teatro armado para os pistoleiros que, ele sabe, estão à espreita lá fora. Harmonica os mata também e Jill compreende que arrumou mais um amigo. Na próxima cena ela já abandonou o luto e vai acertar as contas com Frank, usando um mensageiro gordo e idiota como isca. Assim, Harmonica chega até Frank e ao vagão de Morton.

Pela primeira vez, vemos um flashback nebuloso de um homem caminhando no deserto, o principal mistério do filme, relacionado ao interesse de Harmonica por Frank. Afinal, o que o pistoleiro sem nome quer com ele? Frank também quer saber. Quando ele pergunta “quem é você?”, Harmonica responde com nomes de homens que Frank matou há tempos atrás. A explicação fica implícita: Harmonica é um fantasma que veio prestar contas com o passado de pecados de Frank. O vilão começa a se sentir atormentado por aquilo. Mais do que matar Harmonica, ele quer entendê-lo e por isso prefere mantê-lo preso enquanto vai cuidar de outro assunto mais importante: a viúva McBain. A ausência dele abre espaço para Cheyenne salvar Harmonica. Importante destacar: no tema de Cheyenne, Morricone é mais suave, bonachão, quase cômico, agrega simpatia ao personagem. É o tema mais “spaghetti” da trilha.

Jill recebe uma encomenda feita pelo finado marido: muita madeira e uma placa sem inscrição. Então ela compreende os planos empreendedores do homem: preparar uma estação de trem em Água Doce para esperar a chegada da ferrovia e fazer do lugar uma cidade. Agora tudo faz sentido. “Era uma vez no Oeste” é um filme de especulação imobiliária afinal. Frank a encontra e a leva sequestrada. Harmonica e Cheyenne chegam tarde demais, mas descobrem os planos de McBain. A estação deve estar pronta quando os trilhos chegarem, não há tempo a perder. Eles já começam a enterrar estacas no chão.

Frank é o terceiro homem a ameaçar violentar Jill, mas o primeiro a fazê-lo de fato. Ele também dá a entender que matou seu marido, só que dessa vez é verdade. E, finalmente, ele também descobre fácil que Jill era uma prostituta. Quando os dois vão pra cama, Leone gira sua câmera e muda o ponto de vista para demonstrar que não se trata de uma cena romântica: Frank faz uso da força, embora Jill não lute contra e volte momentaneamente a sua antiga profissão para sobreviver - lembre-se, é só mais uma lembrança suja para ela. Com uma consequência extra: Frank a convence a leiloar a propriedade de Água Doce por uma miséria e dar o fora dali.

O leilão de cartas marcadas tem uma surpresa: Harmonica dá o lance maior, oferecendo a cabeça de Cheyenne como pagamento. “5.000 dólares. Judas se vendeu por 4.970 a menos”. “Não havia dólares naquela época”. “Mas havia filhos da puta”. No plano armado pela dupla, Cheyenne é levado para pegar o trem para Yuma, outro clássico dos faroestes, mas seus homens já estão prontos para libertá-lo. A insignificância da lei no filme é algo digno de nota. O xerife de Flagstone não vale um dólar furado na trama.

Enquanto isso, Morton compra a lealdade dos homens de Frank e os coloca contra ele. Harmonica e Jill estão no saloon depois do leilão, Frank chega para encarar o seu algoz, mas ao contrário do que determina o manual do western, não há um duelo ali. Ainda não é o momento. Temos o segundo flashback do homem caminhando pelo deserto e agora reconhecemos que o tal sujeito é Frank. Harmonica e Frank percebem uma movimentação estranha nas ruas de Flagstone, aquele cheiro de morte no ar. Frank sente-se acuado, enquanto Harmonica assiste a tudo da janela do quarto onde Jill está tomando banho. Harmonica não vai deixar Frank morrer agora, porque sua vida lhe pertence. A interpretação de Henry Fonda, encurralado e perseguido por seus próprios demônios, tentando entender quem é Harmonica e por que ele o está ajudando agora, é um negócio fora de série e transforma a cena em mais do que um tiroteio na cidade.

Após matar os caçadores desleais com a providencial ajuda de Harmonica, Frank vai até o vagão de Morton acertar as contas com ele e encontra outro cenário de massacre. Os homens de Cheyenne e seu próprio bando estão todos mortos, roupas claras e escuras misturadas com sangue no chão. Como curiosidade, o cineasta John Landis é um dos figurantes mortos ali. Frank então encontra Morton rastejando do lado de fora do vagão, indo de encontro a uma pequena poça d’água suja no meio do deserto. Bem longe do mar, bem longe de seus sonhos, é onde ele encontra seu fim trágico. No velho oeste, os fracos não têm vez. Sua morte é seguida pela cena da ferrovia sendo expandida, ou seja, o progresso continua sem ele.

Morton está morto, Cheyenne está ferido, Harmonica está esperando Frank voltar para, enfim, colocarem um ponto final em suas histórias. Frank descobre que nunca será como Morton, um homem de negócios. Ele diz ser apenas um homem. Harmonica se identifica com ele. São dois homens de uma raça em extinção, pioneiros, das antigas. Não há mais lugar para eles ali, a era dos cowboys está acabando e os personagens de Leone sabem disso. Frank sabe que só vai descobrir a verdade sobre Harmonica quando estiver à beira da morte e nada mais importa para ele. Ele quer se livrar dos seus fantasmas. Os dois então partem para o duelo final.

Se “Era uma vez no Oeste” foi classificado por Sergio Leone como “a dança da morte”, a cena do duelo é a melhor representação disso. A música “The man with the harmonica” mais uma vez toma conta da cena enquanto Harmonica, de branco, acompanha com o olhar a movimentação de Frank, de preto. Um balé coreografado com maestria. Os duelos são os maiores representantes dos faroestes, são o clímax perfeito, quando o bem e o mal se enfrentam, medem forças e o mais rápido no gatilho vence. Muito melhor quando os dois personagens são tão bem construídos como em “Era uma vez no Oeste” - tem algo mais em jogo ali, existe uma história de mistério no passado, existe o fim de uma era para o futuro. Tudo vai se resolver e nada mais vai ser como antes. É o modo como todo filme deveria terminar, e portanto é o melhor clímax que o cinema pode proporcionar. Se me pedirem para escolher uma única cena de todos os filmes que já vi na vida, é essa que eu escolho. Quando eu morrer, podem colocá-la em loop em um monitor de LCD sobre a minha lápide.

Silêncio. Ainda não é hora de disparar o gatilho. Zoom nos olhos torturados de Charles Bronson. A gaita toca e vem o flashback revelador, dando uma pausa no duelo e aumentando a dramaticidade. O homem sorrindo no deserto é um Frank mais novo. Ele tira uma gaita do bolso e a coloca na boca de um moleque que está sofrendo - o jovem Harmonica. Ele carrega nos ombros seu irmão mais velho, que está com uma corda no pescoço. Se Harmonica enfraquecer e cair de joelhos, seu irmão morre enforcado. Frank assiste àquilo com satisfação. O jovem Harmonica não aguenta e cai, matando seu irmão. Voltamos imediatamente para o presente. Os gatilhos são disparados, Frank gira sobre os calcanhares e cai, baleado. Conforme previsto, todos são afetados: Jill se assusta com o tiro, Cheyenne se corta com a navalha enquanto faz a barba. Harmonica pega sua gaita e coloca na boca do agonizante Frank, que finalmente compreende tudo e aceita sua morte. “Era uma vez no Oeste” é um filme de vingança afinal.

No epílogo, Cheyenne está na casa de Jill se preparando para partir. Ele dá conselhos a ela. Diz para ela ir dar de beber aos trabalhadores da estação, só para eles a verem, para elevar a moral da tropa. “E se eles passarem a mão em você, finja que não é nada”. Jill chega a cogitar um envolvimento mais íntimo com Cheyenne ou Harmonica, nessa espécie de triângulo amoroso nunca consumado. Cheyenne diz que eles não são os homens certos para ela. “Homens assim têm algo por dentro. Algo a ver com a morte”.

Os dois vão partir. A cidade que está nascendo ali não é lugar para eles, homens do passado. Cheyenne não aguenta muito tempo, fica pelo caminho e morre, mas não quer que Harmonica o veja agonizando. O trem chega, e sempre que o trem chega ele está trazendo esperança: primeiro foi Harmonica, depois Jill. Agora ele traz novos trabalhadores enquanto a câmera de Leone sobe revelando a nova cidade. Jill segue o conselho e vai levar água para os homens, sendo recebida com festa. É o nascimento de uma nação que tem Jill como figura materna. E que maneira mais genial de dizer ao mundo que a América é filha de uma puta.

"Era uma vez no Oeste" influenciou muita gente, redefiniu um gênero e nos últimos anos ganhou um saudável status de cult, graças sobretudo às inúmeras reverências dos amigos Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, que não se cansam de homenagear a obra sempre que possível. Além do valor cinematográfico, a música de "Oeste" também marcou a cultura pop. Entre outras peripécias, "The man with the harmonica" ganhou uma versão eletrônica do Apollo 440 (presente na trilha da "Família Soprano") e uma versão alternativa ao vivo do Muse (que usa a música como introdução para a sua épica western "Knights of Cydonia"), além de abrir uma turnê do Bruce Springsteen, que também regravou o tema principal do filme em uma coletânea de covers de Morricone que tinha até a Celine Dion. Pode parecer bobeira, mas esses reconhecimentos me deixam feliz. Quando as pessoas que você admira gostam das mesmas coisas que você, o mundo faz mais sentido.

Mais do que qualquer clássico do Bob Dylan ou do próprio Springsteen, foi "Era uma vez no Oeste" que me chamou a atenção das gaitas, esse instrumento tão subestimado. Eu, que nunca toquei instrumento nenhum na vida, ganhei de presente das minhas irmãs uma gaita que nunca aprendi a tocar direito, mas que guardo com carinho para um dia, quem sabe, aprender pelo menos aquelas notas mágicas do Morricone. Aquela melodia que vem das sombras, de longe, de alguma outra dimensão, para despertar fantasmas e homenagear os homens do passado. Uma melodia que tem algo a ver com a morte.


Henry Fonda, Claudia Cardinale, Sergio Leone, Charles Bronson e Jason Robards

2 comentários:

Felipe Thiroux disse...

Clap, clap, clap!

Parabéns! A resenha fez jus ao filme que homenageia, esse também no topo da minha lista de melhores de todos os tempos!

Zeldrie disse...

Costumo ler quieta e nunca fazer comentários, mas sua postagem merece um olé! Filmes como Era uma vez no Oeste nos elevam os padrões, quem consegue assistir um filme mediano qualquer depois disto. Sergio Leone é um gênio, rodeado de outros gênios, parece que o contato com ele elevou a carreira de muita gente. Fiquei feliz de já ter assistido o filme, pois você o detalhou todo com muita clareza. Pensei muito sobre isto, quando você assiste a uma obra prima, fica com ela na cabeça. Na minha, ficou por semanas e fui pesquisar e devorar cada informação a respeito, como, onde, porque, de onde veio esse cara, o que o inspirou, como conseguiu aqueles atores, talhados perfeitamente e o olhar sinistro do Henry Fonda, que mete um medo danado! Perguntas e mais perguntas. Agradeço por ter sanado algumas, porque obras assim nos fazem pensar, os diálogos são tão poucos neste filme, mas dizem tanto. Acho que nunca tinha ficado tão fascinada por uma obra como fiquei por esta.
Enfim, um filmaço!